Scifiworld

Crítica a "Mr. Robot" Destaque

el  quinta, 08 outubro 2015 15:00 Escrito por 
Classifique este item
(0 votos)

Série protagonizada por Rami Malek dá vida a uma personagem atípica no panorama televisivo estadounidense.

Elliot Alderson dirige-se ao espectador, disposto a ser o narrador da sua própria história. Mas, dirige-se realmente à pessoa que se encontra do outro lado do ecrã? Não, fala para alguém que não existe fora da sua cabeça (ou talvez seja consciente da sua qualidade de personagem de ficção e essa esquizofrenia paranóide não seja mais do que a constatação da irrealidade de todo o seu mundo?).

Elliot Alderson, consciente da sua loucura, trabalha numa empresa de ciber-segurança ainda que a sua verdadeira vocação seja outra: é um hacker. E um muito bom.

Elliot Alderson, brilhantemente interpretado pelo actor de ascendência egípcia Rami Malek, é o protagonista desta inovadora proposta cuja primeira temporada está composta por dez episódios e que recebeu o título de "Mr. Robot".

E quem é esse Mr. Robot? Recomendo encarecidamente que desfrutem destes dez episódios para o averiguarem, pelo que direi unicamente que se trata de alguém cansado das normas que regem a sociedade injusta onde o vencedor (o poderoso) fica com tudo.

Desde o início damo-nos conta que nos encontramos perante uma proposta audiovisual diferente, com uma personagem protagonista bastante atípica na ficção estado-unidense (onde inclusivamente os anti-heróis não deixam de ser heróis disfarçados) e, sobretudo, perante uma forma de contar as coisas bastante inovadora.

E-Corp, a todo-poderosa companhia que parece controlar tudo (tecnologia, activos financeiros, seguros…), é chamada pelo protagonista Evil-Corp e, desde esse mesmo instante, cada vez que uma das personagens pronuncia o seu nome, o espectador escuta-o do mesmo modo que Elliot.

Aliás, depois de desatar aos gritos diante da sua psiquiatra (não realmente, os gritos são na sua cabeça) e exclamar ‘Fuck society!’ (‘Que fodam a sociedade!’) e descobrir um grupo de hackers chamado fsociety, cada vez que alguém pronuncia a palavra que começa por ‘f’ o espectador escuta-a silenciada do mesmo modo que sucede quando se censura e se impede que a escutem inteira para evitar ferir susceptibilidades demasiado sensíveis (do mesmo modo, no último episódio, será a palavra ‘mind’ (‘mente’) a que não escutaremos).

E também há que mencionar a feroz crítica às empresas tecnológicas e certas redes sociais, enfatizando as vantagens do software livre (desde sistemas operativos até anti-vírus, que são colados no diálogo ou aparecem nos ecrãs dos computadores das personagens).

Ao longo da temporada conheceremos Angela, amiga de infância do protagonista, Shaila, sua vizinha, Gideon, seu chefe, Krista, sua psiquiatra, e os membros da fsociety: Darlene, Trenton, Romero, Mobley e o misterioso Mr. Robot (interpretado por Christian Slater); sem esquecer, claro, Tyrel Wellick e a sua grávida esposa, nem o misterioso White Rose. Mas, será que os conheceremos realmente ou simplesmente veremos a versão que Elliot interpreta ao vê-los?

Porque o interessante da série não é a premissa de que parte ou a luta de uns inteligentes hackers para fazer a sociedade mais justa eliminando uma corporação diabólica que controla o crédito e a dívida de oitenta por cento da população. Nem sequer os riscos que devem assumir para levar o seu plano até ao fim. Ou aqueles homens vestidos de negro de quem fogem, assassinos contratados pelos homens que controlam o mundo desde as sombras. O mais interessante é que, desde o princípio, não podemos estar seguros do que é real e o que está só na mente do protagonista. Apesar de que o espectador pode fazer uma ideia bastante acertada do que há algo (ou alguém) que não está bem, que não encaixa completamente, a forma como se produz essa revelação (conversa de Elliot com o espectador incluída), assim como a cena em que pega na câmara e a atira ao chão, como que querendo escapar do olhar indiscreto daqueles que desfrutam da série do outro lado do ecrã, fazem com que o relato seja infinitamente mais interessante do que seria narrado de uma maneira mais convencional.

Inesquecível também é o capítulo quarto, desde o momento em que Elliot tem de superar a ressaca (sim, além de estar no limiar da loucura é viciado em morfina), com umas cenas que parecem saídas de um pesadelo de David Lynch. Destacam-se especialmente o momento onde o protagonista chega à casa da sua infância e, num poste situado no meio de um painel, lê-se ‘Error 404 Not Found’.

E enquanto Elliot avança para a consagração da fsociety e o mundo à sua volta se desmorona, Tyrel, que poderíamos definir como o inimigo visível nesta história (já que os verdadeiros poderes obscuros permanecem na sombra) degenera também através da sua própria loucura até que ambas as tramas confluem num encontro que não se augura bom.

Rami Malek interpreta magistralmente uma personagem que chora no silêncio do seu quarto e que grita pedindo auxílio em cada uma das suas acções, todas elas direccionadas para encontrar uma saída da solidão.

E não nos esqueçamos que, no aspecto visual, tudo está cuidado até ao mínimo detalhe. Pelo que é preciso estar atento aos cartazes que estão na parede, à publicidade no metro, aos graffitis…

Talvez a única coisa que se poderia eliminar da magnífica metragem que compõe esta série (e simplesmente por ser um aspecto menos positivo da mesma, não um negativo) é o epílogo final que, sem dúvida, serve para reconduzir a linha argumental para uma possível segunda temporada.

Chegará essa continuação aos nossos ecrãs? Apesar do que se disse, há sempre uma possibilidade de mudar de opinião, pois as grandes produtoras podem decidir no último momento descartar ou ressuscitar um projecto. Em princípio, e devido ao grande êxito com audiência e crítica, uma segunda temporada parece mais que assegurada. Mas o importante aqui é a pergunta que nos devemos fazer: isso realmente importa? E sim, claro que uma segunda temporada permitiria ao espectador voltar a desfrutar desse mundo tão fascinante que, acompanhado pela estética dos créditos e a genial escolha de banda sonora (que combina temas clássicos com música electrónica que pode transportar-nos ao mundo de Tron ou levar-nos a estados de desassossego e/ou inquietude), cativa desde o primeiro até ao último plano, mas estes dez episódios podem ver-se com total autonomia. O final, de sentido aberto, conclui a trama principal e, pela própria estrutura da série, deixam Elliot no ponto em que fica quando a câmara se despede dele, é um final redondo, narrativamente falando. Outorga autonomia à temporada, convertendo-a numa história com princípio e fim (deixa uma incógnita, o paradeiro de uma personagem, mas se não houver continuação o espectador pode compreender perfeitamente o que aconteceu com ela; e se continua, também é simples compreender até onde se dirigirá a sua trama).

Inteligente e inovadora, se todavia alguém não estiver convencido que Mr. Robot seja a série do ano (e não apenas da temporada veraneante), que dê uma oportunidade aos quase sessenta e cinco minutos do primeiro episódio para o comprovar. O único inconveniente é que, uma vez começada, não a conseguirá deixar.

Simplemente genial.

 

Daniel Ferrera

Ler 2102 vezes

Deixe um comentário

Certifique-se que coloca as informações (*) requerido onde indicado. Código HTML não é permitido.

Mais Vistos

 

C/ Celso Emilio Ferreiro, 2 - 4°D
36600 Vilagarcía de Arousa
Pontevedra (España)

Redacción: 653.378.415

info@scifiworld.es

Sobre Scifiworld

Copyright © 2005 - 2019 Scifiworld Entertainment - Desarrollo web: Ático I Creativos