Acusam a Coreia do Norte. Uns garantem que sim, outros que não. Isso pouco interessa. Para evitar dúvidas, separemos as duas entidades, Hackers, Norte-Coreanos.
Primeiro falou-se dos filmes de 2015 colocados online. Sabemos que todos os meses vários filmes ficam disponÃveis online, assim que saem para cinema ou antes. Mas supondo que iria dar maior prejuÃzo do que o normal, seria um problema financeiro.
Depois foram os emails dos funcionários. Falam mal de profissionais da indústria, de colegas, da própria empresa... Nada que não se imaginasse, mas havendo provas é um grande problema diplomático.
Divulgaram dados pessoais dos funcionários. Isso é um problema pessoal para cada um deles que a Sony já teve em maior escala com a sua comunidade de jogadores PlayStation e resolveu imediatamente contratando serviços de segurança para identidade digital. São vários problemas financeiros e privacidade individuais.
SaÃram ideias para filmes e actores em negociação. Ouvimos coisas como "spin-off dos Ghostbusters com Channing Tatum e Chris Pratt", que a Marvel tentou recuperar o Spider-Man para "Civil War" sem sucesso (não se ouviu falar sobre uma ajuda de Rogue à Captain Marvel), e que a Sony que quer juntar os F4 com os X-Men... É normal esboços de ideias estarem cá fora e em nada afectam os projectos em curso por estarem ao nÃvel de qualquer outro rumor de hoje em dia. Quanto muito gera publicidade.
Depois veio a parte mais suja, a parte polÃtica em que um gigantesco plano estaria a ser orquestrado pelos estúdios para acabarem com a reputação da Google, o último bastião de informação que não controlam. Problema legal.
Até aqui, nem Hackers, nem Norte-Coreanos ganharam nada com isso.
Tendo passado todo esse fumo, voltamos ao assunto principal e, finalmente, aos intervientes. A Coreia do Norte não aprova/autoriza a exibição do filme "The Interview" onde tentam matar o seu querido lÃder. O novo "Red Dawn", e o segundo dos "G.I.Joe", todos são contra a Coreia do Norte. Até o cinema europeu goza com eles.
Porquê? Porque o paÃs está fechado em si mesmo, a informação do exterior não chega lá para se sentirem ofendidos e o que se sabe do interior é tão vago que se pode supor tudo. Em tempos passou-se o mesmo com a URSS e a China, a diferença é que esses entretanto se tornaram grandes mercados para a indústria cinematográfica e por isso hoje são tratados com respeito, tendo inclusivamente direito a robots gigantes para combater Jaegers, algo inimaginável há alguns anos. Falar e ser visto ajuda os filmes a conseguirem respeito. Os incidentes diplomáticos de "Borat" e "Argo" não foram graves comparados com isto. "Team America: World Police" (dos mesmos realizadores que tornaram Saddam Hussein alvo de chacota no distante ano de 1999) fazia pouco de árabes e norte-coreanos ao mesmo tempo que dos próprios estado-unidenses e não causou problemmas.
Então o que tem "The Interview" de especial?
Nada. E se não o virmos, como os norte-coreanos e os hackers não viram, nunca saberemos.
Os hackers lançaram confusão e ainda não se sabe o que ganharam com isto. Acesso a filmes não tão bons? Se eram lançamentos de Janeiro, eram os mais fracos do catálogo. Vingança? Apesar de todos os mails ofensivos, a Sony não está a ser vista como a má da fita. Fama? A Coreia do Norte ficou com ela.
O que ganhou a Coreia do Norte com as ameaças e o medo que impediu as salas de exibirem o filme adiando a estreia do filme? O público pede que o filme seja oferecido online para que todos o vejam, e, com tanta publicidade, qualqer que seja a decisão fará muito mais receitas do que originalmente no cinema.
Quem ganhou foi o público que vai tendo muito com que se rir à medida que o tema é trabalho por diferentes ariistas que usam o riso como arma.
Sugiro algo melhor. "The Interview 2" sobre uma equipa que entra na Coreia do Norte para lhes levar o "The Interview".
Agora que a Anonymous ameaça retaliar sobre a Coreia do Norte, isto pode escalar para uma guerra informática como nunca vimos. Um confronto remoto, de bastidores, com a informação como arma e todas as infra-estruturas como alvo.
Quando é que se deixou de tratar de um filme cómico para ficarmos envolvidos num de espionagem? Quem lhes pode recordar que é apenas um filme?
