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Um resumo das curtas nacionais no MOTELx 2015

el  quinta, 17 setembro 2015 21:00 Escrito por 

e (finalmente) o anúncio do vencedor.

A semana passada teve lugar a nona edição do MOTELx, festival lisboeta de terror que se tornou já uma referência cultural do panorama nacional e cada vez ganha mais peso lá fora.

Esta edição que teria como convidado de honra Roger Corman, acabou por ter de se contentar com Richard Stanley. Trocar um dos maiores nomes do fantástico do século XX e mentor de vários dos realizadores que adoramos dos anos 1970 em diante, por um artista icónico que poucos fora do fantástico conhecem (elesé que perdem) pode ter sido complicado para o festival em termos mediáticos, mas o público dito normal não se importou e voltou a esgotar várias das sessões, algumas com uma semana de antecedência.

A competição continua a ser exclusiva para curtas nacionais e portanto falemos um pouco de cada uma.

 

Andlit

O género animação - que tantas vezes venceu esta competição - volta a mostrar trunfos em “Andlit”, a pequena história de um robot que se quer sentir um pouco humano.

Com uma duração muito breve, é sobre um robot que está fechado nuns arrumos e explora a humanidade através do que vai lendo. Quando uma humana invade o seu espaço em busca de um esconderijo, ele vai ter contacto privilegiado com a nossa espécie e vai aproveitar para melhorar a sua humanidade.

O humor negro é a peça fundamental desta obra que, com pequenos gestos nos faz sofrer mais do que qualquer um dos concorrentes em imagem real. João Teixeira Figueira apesar da jovem idade, é um talento a ter em conta na animação portuguesa.

 

Arcana

Como manda a tradição, Jerónimo Rocha fez o spot do festival e aproveitou para fazer também uma curta. Inspirado na lenda da dama do pé-de-cabra, é um filme bastante nojento que toca em vários dos clichés do género.

A história é simples. Uma bruxa está presa a um obelisco e dentro de círculo de sal. Usando as artes negras, vai tentar libertar-se e vingar-se dos seus captores. O que assistimos nesta curta é todo o processo místico de preparar uma poção com os animais que ousam penetrar no círculo.

Não sendo assustador, permite perceber rapidamente como a experiência solitária da irreconhecível Isís Cayatte deve ter sido tortuosa ao preparar tal mistela, mas o resultado final é positivo. Um pouco mais breve teria sido melhor pois, de tão explícita que é a cena, deixa qualquer um enojado em menos de um minuto. Ou seja, objectivo cumprido.

 

The Bad Girl

A religião é sempre um bom ponto de partida para o terror e em “Bad Girl” é precisamente esse o mote. Uma mulher entre no santuário a rezar um Avé Maria a que se segue outro, mais outro, mais outro… A única coisa que percebemos é o seu pânico. Será que algo a persegue?

Inspirada num conto de um autor nacional (não vale a pena revelar qual para não estragar a surpresa) e com um longo e complicado plano-sequência, dá-nos tempo para apreciar a fotografia. O trabalho de câmara era exigente e por isso fica registado como o ponto mais fraco do filme pois uma lentidão pouco natural - e mesmo algumas pausas forçadas – tornam o plano longo exageradamente monótono. Tirando isso é uma obra competente que pode ser vista uma vez ou duas com honesto interesse.

 

Efeito Isaías

Filmado com uma única localização e apenas um actor, “Efeito Isaías” acaba por ter uma premissa muito simples que é explorada à exaustão. Um homem chega ao parque de estacionamento. Desliga o carro, o telemóvel toca, ele sai, fecha a porta, e …

Feito do material de pesadelos, essa ideia inteligente acaba por não ser devidamente explorada. Pelo título esperávamos uma justificação para o que estamos a ver acontecer. Essa aura de mistério que fica tem três efeitos possíveis. A uns pode assustar. A outros pode desiludir. E a outros pode dar vontade de ver uma sequela. Foi mais uma jogada inteligente que com o público certo funciona.

Digno de nota é que nesse surpreendente papel individual temos Rui Unas, um nome conhecido do terror nacional que há algum tempo não se aproximava do género. Entra um pouco em modo overacting, mas percebe-se a intenção.

 

Ermita

É estranho que entre dez nomeados para o prémio e Curta de Terror, só metade deles possam ser facilmente inserido no género. “Ermida” é uma dessas que não engana e logo no título sabemos que o que vamos ver é para assustar, ainda que o tempo que demora a chegar à parte interessante seja maior do que a dita.

Um jovem casal de namorados retira-se para um lugar sossegado em busca de um momento de privacidade. O frio leva-os a entrar num edifício abandonado onde, obviamente, algo tenebroso os espera.

Com um som em linha com o que seria pretendido, alguns sacrifícios na fotografia para criar um ambiente mais tenebroso, e com um opositor que abre várias possibilidades, “Ermida” tem uma estrutura bem-definida e consegue ser eficaz em pouco tempo, ainda que não assuste muito. Dos em imagem real é o único que encaixa no modelo tradicional de terror, com todas as vantagens e desvantagens.

 

Gasolina

Um crime dá o pontapé de saída para a odisseia de um homem. Perdido à noite no meio de nenhures, precisa desesperadamente de uma forma de pedir ajuda, ou de gasolina para chegar a um hospital. Até que encontra um senhor de idade. Pode não ser a pessoa ideal, mas é a única pessoa por perto. E lentamente o jovem vai caindo na armadilha.

Ainda que pela sinopse a ideia-base faça lembrar “Embargo” de Saramago, “Gasolina” é uma proposta diferente. Tem humor, é actual, foi contida no número de personagens (como todas as outras curtas) e cenários, mas está bem construída. Algumas decisões quanto aos planos podiam ser melhores, mas é uma obra bastante bem feita e que se vê muito bem. O terror convencional fica em segundo plano quando vemos o assustador que é negociar com aproveitadores.

 

Insónia

Um homem conduz pela noite dentro. Tenta manter-se acordado. Até que passa dessa quase letargia para a acção e isso terá consequências.

O ritmo inicial do filme é mais do que adequado para explicar como são monótonas as viagens nocturnas, sem no entanto se tornar cansativo. Há sempre a expectativa que algo aconteça. Quando passamos o ponto de mudança, o ritmo vai esmorecendo e até ao final. É uma pena desperdiçar esse esforço em espevitar uma noite monótona para o espectador, num filme que depois não consegue prender.

Fica a impressão que funcionaria como parte de algo maior. Talvez com algo mais antes, talvez com algo mais depois. Ficou muito por contar e por isso a curta parece mais pobre do que realmente é.

 

The Last Nazi Hunter 2

O prémio de filme mais divertido da competição estava entregue à partida. Desde “Dentes e Garras” que a secção não tinha algo tão promissor no campo humorístico e “The Last Nazi Hunter 2” correspondeu ao que prometia no site e redes sociais.

A viagem de um francês que vem a Portugal em busca do último nazi para retribuir as atrocidades que ele cometeu na guerra, dão o mote para um filme que tem pouco de terror, mas muito de humor e amor. Há detalhes arrepiantes, mas dificilmente serão levados a sério por entre os vários risos que causa. Tirando isso, é uma curta divertida, bem filmada, com actores profissionais e é inegável que é original.

 

Miami

Um casting completamente vulgar foi a forma escolhida para nos mostrar a personalidade de Raquel. Desejosa de ser uma estrela, tem os sonhos constantemente esmagados pela mãe. Mas as amigas acreditam nela e não as quer desiludir. Raquel vai ser famosa custe o que custar.

Muito bem filmado e com a sorte de ter uma interpretação fabulosa de Alba Baptista (um rosto já conhecido da televisão), é a história dramática de uma jovem que, como muitas outras pessoas, não quer saber de ninguém e apenas pensa como ser alguém, mesmo que para isso tenha de esmagar vários inocentes.

Com um terror diferente do comum, o que tem para nos fazer arrepiar é esse retrato frio, cru e muito plausível da sociedade que estamos a criar.

 

O Tesouro

Outro caso de uma curta inspirada num velho conto nacional. “O Tesouro” é a história de três irmãos numa época medieval que se deparam com um baú recheado e começam a fazer planos sobre como o vão dividir e o que fazer com ele.

Um bom trabalho técnico passa despercebido num filme claramente mais pobre do que os restantes no que diz respeito ao resultado final. A necessidade de alguns efeitos especiais que não conseguiu concretizar é o ponto final numa história que só por alguns momentos conseguiu captar a atenção. E apesar de ser sobre a natureza humana, mais uma vez, ser de terror é relativo.

 

A Tua Plateia

Um homem de poucas palavras e fumador compulsivo, aparentemente está a eliminar várias pessoas aleatórias que se cruzam com ele. Pelos recortes de jornal percebemos que não é a primeira vez que está associado a uma morte. Mas o seu verdadeiro motivo só será conhecido no final.

Com uma aura de mistério e também apoiado numa sólida interpretação do seu protagonista, “A Tua Plateia” é um trabalho que vai em crescendo até ao seu forte final que obriga a repensar os julgamentos apressados que se fizeram sem conhecer toda a história. Apresentando uma justificação quase compreensível para os seus actos, este perigoso louco ganha um pouco de simpatia.

 

 

O vencedor foi "Miami", com menção honrosa para "Andlit" e ambos foram bem entregues. Desejamos boa sorte a "Miami" nos Méliès d'Or onde, até ao momento e muito provavelmente, será o único português em competição.

Mídia

Cobertura do festival lisboeta de terror

Posted by Scifiworld Portugal

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