Comic Con Portugal - A importância de um nome.
No passado mês de Dezembro, Portugal teve um dos eventos mais mediáticos da sua história. Matosinhos albergou a Comic Con Portugal, um evento começado do zero, por portugueses, para divulgação dos autores nacionais. Vamos ver em mais detalhe os seus pontos fortes e fracos para aprendermos com esta experiência o que é preciso para fazer algo grande.
A LOCALIZAÇÃO
A escolha recaiu no Porto, mais precisamente na Exponor de Matosinhos. As vantagens eram imensas. Por um lado não era Lisboa. O Porto não costuma ter grandes eventos e todas as semanas milhares de pessoas fazem trezentos quilómetros para ver músicos que só actuam em Lisboa, escritores e cineastas que só dão conferências em Lisboa, a pouca imprensa que resiste no Norte do país recebe convite quase diários para apresentações, visionamentos e festivais em Lisboa. Essa raiva miudinha concentrada, esperava por algo vistoso para retribuir. Uma grande convenção, fosse do que fosse, iria ser extrapolada para engrandecer o Porto. E havendo uma gritante falta de eventos no Porto, quando algo com um nome conhecido aparecesse todos quereriam estar presentes. Mesmo os patrocinadores, que por tanto tempo ignoraram pedidos de ajuda, decidiram associar-se ao evento.
Por outro lado, o Porto tem excelentes ligações por terra, mar e ar a Espanha e ao resto da Europa. Sendo uma cidade na moda (melhor destino europeu em 2014, há vários anos com um dos melhores aeroportos do mundo e uma capacidade hoteleira em crescimento) tinha tudo o que era preciso para receber grandes eventos internacionais. A curiosidade pelo destino, aliada ao pretexto para visitar, era uma situação de ganhos óbvios para todos.
E como o nome não é Matosinhos nem sequer Porto, pode mudar para outro sítio quando a moda passar. O que serve como uma muito eficaz arma de negociação pois se uma multidão exige que continue perto, outras pedem que se mude para mais perto.
AS PRÉ-VENDAS
Da primeira vez que a SciFiWorld falou da ComicCon, notou-se uma grande confusão, com pessoas a pensar que A ComicCon se mudaria para o Porto. É que num mau movimento de marketing, os fundadores da convenção de San Diego não registaram o nome quando deviam, e quando trataram disso já era tarde e as ComicCon pululavam por todo o lado. Por isso, também no Porto puderam usar o nome de forma ambígua. Nunca dizendo se eram ou não eram a outra. As pré-vendas com base apenas no nome foram impressionantes e à medida que se anunciavam convidados as vendas melhoravam num efeito bola de neve. Dessa forma recolhiam dinheiro para convidar mais gente (e mais apelativa).
Sempre que alguém comprava o bilhete (um preço normal para estes eventos, mas um pouco caro para a nossa realidade) assegurava-se de deixar os amigos invejosos partilhando nas redes sociais e pressionando para que fizesse igual loucura. A engrenagem de marketing funcionava sozinha e além das pessoas, também os artistas e as marcas iam ouvindo falar e pediam para se associarem. Isso permitiu que uma convenção que podia ser igual a todas as outras feitas no país e no Porto, subitamente se tornasse algo gigantesco. Finalmente ser um geek era fixe.
O RECINTO
Chegou a hora de referir a única coisa mesmo má em todo o evento, a localização. A Exponor é praticamente o único recinto na região com dimensão para albergar um evento deste tamanho. Por ser próximo do aeroporto é bom para gerir viagens de convidados. É suficientemente próximo do Porto para ser considerado perto, e suficientemente afastado para não ter a confusão da cidade. Só que costuma ser usado para exposições para noivos, para pais, salões eróticos, de automóveis, mobiliário, para vendedores... ou seja, para gente adulta e com carro. No máximo para eventos infantis em que cada escola usa um autocarro. E é para grupos que visitam o evento por duas a quatro horas e voltam ao seu dia a dia. Não é para uma legião de adolescentes sem carro que vai passar 12 horas por dia lá dentro. Não só não há transportes públicos regulares (ao domingo a única forma de chegar ou partir é um autocarro de 80 lugares a cada meia hora), como os restaurantes não conseguiam dar vazão a todos os pedidos.
Estando previsto que o evento se repita por mais cinco anos naquele espaço, o melhor é estarem prevenidos. Não há problemas de trânsito por isso, enquanto não houver metro para aquela zona, organizem-se em grupos e vão de carro ou insistam desde já com o evento para organizar alternativas de transporte. Quanto à comida, podem sempre entrar com algo para disfarçar a fome e ir para a fila dos restaurantes às onze e meia da manhã quando ainda está com um tamanho aceitável.
OS CONVIDADOS
Podia dizer que, para uma convenção com historial, seria um excelente lote de convidados. Para uma primeira edição, foi fenomenal. Com ajuda do correspondente nos EUA, Joe Reitman, chegaram à fala com imensas estrelas. As televisões onde as séries passavam deram uma ajuda, e o resultado foi um grupo bem vistoso e simpático. Aos artistas nacionais das mais variadas áreas, juntaram-se estrelas dos Comics, da Televisão e do Cinema.
Em primeiro lugar destacaria os comics onde Espanha estava muito bem representada por Miguelanxo Prado, Javier Rodríguez e Marcos Martin, mas onde também se teve oportunidade para ouvir Randy Straley da Dark Horse Comics, Gregory Lockard da Vertigo Comics e Brian K. Vaughan, autor de “Saga” e o parceiro de Martin em “Private Eye”.
Do cinema e televisão chegaram vários nomes adorados pela multidão. A primeira a confirmar a presença foi Natalie Dorner, que após uma visita rápida a Madrid em 2013, voltou à Península Ibérica para ter salas cheias de admiradores do seu trabalho em “Captain America”, “Game of Thrones”, mas especialmente no terceiro filme “The Hunger Games” que tinha estreado semanas antes.
Seguiu-se Paul Blackthorne, actor de “24”, onde foi o vilão Stephen Saunders da terceira temporada, e “Arrow”, como o implacável detective Lance. Também esteve Seth Gilliam que passou a vida em séries intensas como “Oz” (interpretou o conflituoso filho de Samuel Hughes), “Teen Wolf” (o veterinário) e “The Walking Dead” (o padre). E esteve Clive Standen para nos falar da próxima temporada de “Vikings” onde faz de Rollo e anunciar que terá uma quarta temporada.
Para os geeks mais exigentes, a vinda de Morena Baccarin foi um sonho tornado realidade. A brasileira construiu uma carreira de sonho no fantástico, tendo passado por “Firefly”, “StarGate”, “V”, “Gotham” e “The Flash” (além de várias personagens da DC em séries de animação) e foi anunciada recentemente como actriz principal do filme “Deadpool”. E se houvesse alguém na Comic Con que não conhecesse nada disso, apenas pela sua beleza e simpatia já valeu a pena suportar as filas.
No entanto o fenómeno mais evidente desse fim-de-semana foi “Da Vinci’s Demons” pois a presença de três actores da série - Elliot Cowan, Blake Ritson e Tom Riley - com o apoio dos canais FOX, gerou uma algazarra que superou qualquer outro convidado. Nada anima uma convenção como fãs histéricas que gritam a cada sorriso. Havia bastantes assim e os actores corresponderam a muitos dos desejos que foram expressados deixando uma excelente impressão.
OS ARTISTAS PORTUGUESES
Como seria de esperar, os artistas portugueses estavam em grande maioria. Nem vou escrever sobre a zona dos ilustradores onde vários artistas por descobrir se davam a conhecer junto de outros com um público fiel. Apenas com aqueles que tiveram direito a auditório já há muito para falar.
No cinema estiveram “Collider”, um dos casos recentes de FC nacional, a equipa de “Balas e Bolinhos”, a trilogia mais bem-sucedida da história do cinema nacional, e até “Dédalo”, uma curta de terror que abriu o MOTELx 2013 e esteve no Nocturna. Em antecipação esteve o projecto “Capitão Falcão”, sobre o fictício herói do Estado Novo e que não terá dificuldades em se tornar o filme português mais visto de 2015.
Na animação foram vários os projectos exibidos, desde indivíduos a empresas, e a arte da ilustração foi dominada pela Banzai que deu um verdadeiro curso de desenho e pintura com várias sessões independentes que se complementavam.
Como o progresso obriga a acompanhar todas as novas tendências, os espaços web como a série “A. Lusitanicus” e o portal de humor Tá Bonito tiveram várias sessões.
Mas o grande sucesso foi mesmo para os comics, com a obra de Filipe Melo - “Dog Mendonça e Pizza Boy” - a manter o seu estado de graça, e alguns novos artistas a conseguirem despertar a atenção. Destacaria o primeiro volume de Buzzard como algo a ter em mente na altura de ir às compras, mas o catálogo da Kingpin Books é, como sempre, meritório pela qualidade e variedade.
Portugal mostrou ter artistas em todos os campos com qualidade para estarem entre os melhores do mundo. É uma pena que sejam precisos eventos destes para se ouvir falar deles, mas esperemos que a projecção conseguida lhes tenha aberto algumas portas.
O PÚBLICO
Comecemos por reflectir sobre o que é uma Comic Con. O nome sugere que seja uma convenção de comics. No entanto, há muito que deixou de ser tal coisa para colocar tentáculos no cinema e televisão, entre muitas outras artes. Antigamente era um evento marginal a que iam os geeks, hoje em dia é um fenómeno de massas a que todos querem ir, apesar de não saberem ao que vão e não tirarem grande proveito por não reconhecerem nem metade dos cosplays ou os artigos de colecção à sua frente. Esses dois fenómenos aconteceram em paralelo, com a abertura a novas temáticas e novos públicos a desvirtuarem um cantinho para apreciadores. Mas isso foi nas primeiras. Esta nova geração pensa que uma Comic Con é assim mesmo e notava-se em muitos rostos que preferiam um sítio com menos geeks, menos bds... tal como muitos puristas estariam a pensar “porque raio estão a falar desta série se não tem nada a ver com comics?”. A vantagem das Comic Cons é que têm tanta coisa que dão para todos os públicos. E se for bem grande, eles nem precisam de se encontrar. Os problemas que aconteceram estavam bem identificados: as mesas para torneios de cartas estavam desertas e foram naturalmente ocupadas por pessoas que queriam comer; os gritos histéricos para o convidado grande do dia faziam-se ouvir nos auditórios das redondezas; o tamanho das filas separava os curiosos dos verdadeiros fãs.
No geral foi um público bem-disposto, mas destreinado e que se cansava facilmente de tanto andar e ficar de pé. Para o ano estarão melhor preparados.
Quanto a Cosplay, houve uma competição e notou-se um grande esforço de todas as pequenas comunidades em marcarem presença. É verdade que as legiões Star Wars estavam melhor preparadas (a saga tinha um cantinho próprio), mas desde os pesados fatos Steampunk, aos inspirados em Naruto, Death Note, Pokemon e Alan Moore, encontrava-se de tudo. E claro, tanto DC como Marvel tinham enorme presença, em especial porque os stands dos patrocinadores não correram riscos e apostaram nos que eram reconhecidos por qualquer um.
Deixo ainda uma nota para o karaoke, pois não só apareceram alguns belos cantores, como impressionavam ao cantar as letras em japonês para serem iguais ao original. Claro que também havia quem cantasse mal, mas o que importava era a devoção sentida.
ESPAÇO INFANTIL
Como é preciso ir preparando a nova geração para este mundo dos comics, havia uma secção dedicada aos heróis dos mais pequenos. As empresas do grupo Disney quase monopolizaram o espaço com “Star Wars Rebels”, “Big Hero 6” e “Disney Channel”, mas as estrelas foram os Pinguins de Madagascar que apareceram para uma rápida visita.
Algumas séries infantis de fabrico em Portugal passaram vários episódios sem igual sucesso. Pais e filhos deixaram-se levar pelos títulos mediáticos, perdendo uma oportunidade de descobrir produtos nacionais igualmente interessantes.
PORQUE FUNCIONOU?
Qualquer outro podia ter feito o mesmo, melhor ou pior, com enorme sucesso. Mas, tal como no famoso caso do ovo de Colombo, o que importa é que este grupo de pessoas pôs em prática uma ideia que muitos tinham tido e ainda ninguém tinha conseguido começar, quanto mais levar até ao fim. Fizeram um evento enorme, correu tudo bem, e no segundo ano estando os problemas com transportes e alimentação resolvidos, a única parte complicada será igualar as expectativas em termos de convidados.
Para aproveitar ao máximo o evento cada um terá de decidir que tipo de convenção procura. Zonas tranquilas, ou zonas com enchentes? Ficar pelos auditórios de comics ou nas bancas a ver os ilustradores? Ir ao auditório com mil pessoas para ouvir, ou ao com cinco pessoas e fazer perguntas? Passar o tempo nos videojogos, fazer cursos instantâneos, ou recolher contactos para mais tarde aprofundar cada uma daquelas artes? Ficar numa fila cinco horas para um autógrafo, ou andar a correr de uma sala para outra todo o dia na esperança de conseguir ver toda a gente? Cada um terá a sua forma de disfrutar ao máximo da Comic Con e vários anos para aprender qual é. É isso o que é uma Comic Con. É isso que temos no Porto.
