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O que aconteceu na SciFiLx 2015

el  segunda, 20 julho 2015 00:50 Escrito por 

Um ano zero que provou muita coisa.

Lisboa não tem falta de eventos. Os amantes do fantástico já estão bem servidos com o MOTELx e o Fórum Fantástico, sem falar de eventos mais específicos de uma arte ou género. Há cerca de ano e meio falaram-me de uma tentativa de fazer uma convenção de Ficção-Científica em Lisboa. Não conhecia as pessoas, mas dei os conselhos que me pareceram mais úteis para o que procuravam. Fui acompanhando de longe e mesmo não tendo ido ao evento warm up que fizeram no ano passado, esperava a Convenção com ansiedade. A altura escolhida não era a melhor. Época de exames para uns, de férias para outros e de festivais de música para muitos outros, só iria a um evento destes neste fim-de-semana, quem fosse mesmo aficionado pela FC. E a verdade é que ainda há muita gente assim pois o evento estava bem composto.
Tendo chegado uns minutos antes da abertura oficial (começa a ser um hábito meu), pude ver a SciFiLx numa grande azáfama. Eram mesas a serem cobertas, outras ainda a serem montadas, alguns dos expositores ainda não tinham chegado e várias das salas aguardavam fechadas. Apesar de o programa anunciar um início matutino às 10 horas, antes das 11 não haveria nenhuma actividade e o público parecia sabê-lo. Pois foi por essa hora que começou a aparecer.

 

Piso Zero

O que se podia encontrar no piso zero? Livros! Além da banca da SciFiLx onde se vendia um pouco de tudo, incluindo livros, a grande maioria dos espaços apostou em mostrar a sua colecção de género. Havia títulos recentes (a Kingpin em força) mas as mais interessantes eram aquelas onde se viam números velhinhos da Argonauta, da Europa-América, da Caminho, os clássicos com que crescemos e que nos ensinaram a única coisa mais importante do que a leitura: a leitura desenfreada por prazer que só se atinge com uma enorme paixão por um género literário. E entre todos os géneros, há algum mais rico e educativo que a ficção-científica?
Claro que o evento não ficava por aí e havia as já tradicionais bancas da PLUG (LEGO), da Imaginauta (que juntou ao seu fantástico Comandante Serralves o protótipo de um RPG chamado Pouso Forçado), crochet de FC, body painting, uma mostra de Física para cativar alunos de secundário para este mundo mágico, e uma grande representação da Liga Steampunk de Lisboa e Províncias Ultramarinas que entre workshops e palestras foi das grandes responsáveis pela animação do evento. A destacar ainda o cosplay que, mesmo sem a postura pomposa de outros eventos, dava muita cor ao piso com um simples expositor de fatos. Quem vinha enganado à procura de terror e quisesse ver sangue, podia sempre passar pelo Instituto do Sangue e fazer doações.


Piso Um

No piso superior estavam as salas de aula (o espaço foi o edifício de Civil do Técnico por isso eram literalmente salas de aula) onde eram dados workhops de vários temas, desde programação de arduinos à criação de objectos steampunk, de escrita criativa a gastronimia molecular. Também era onde se podiam encontrar as salas mais interactivas, fossem de jogos RPG ou LARP, de miniaturas, de cartas, de tabuleiro, videojogos ou karaoke. Havia também o espaço de algumas das comunidades habituais como o Star Wars Clube Portugal e os SmashBros.

 

Piso Menos Um
No piso inferior eram os anfiteatros e os eventos de massas. Foram feitos desfiles, duelos, jogos e muita conversa. Nos anfiteatros havia cinema (com sessões de steampunk, ciberpunk e FC portuguesa), havia realidade virtual da Ubiquosity e muitas palestras sobre os mais variados temas. Como ao segundo dia acabei por herdar essa parte do evento (uma história gira que contarei já de seguida), irei falar um pouco melhor sobre o que se aprendeu nas várias palestras.

 


 

Como é que um forasteiro fica com uma parte de um evento em curso?

Estava por dentro do tema, estava desocupado e estava por lá? Vamos por partes que isto não é tão estranho como pode parecer. Só conheci a organização nesse dia (um ao início da tarde, outro já à hora a de jantar e outro ainda depois) mas como disse no início já tinha falado com um deles há ano e meio. Ao longo desse tempo a SciFiWorld tem feito uma divulgação constante do evento tanto no nosso site como pelas redes sociais, ao contrário de outros meios que até estariam mais próximos. Com uma participação persistente (sim, é um eufemismo) nas palestras e nas sessões de cinema demonstrei bastante conhecimento e à vontade no género inclusivamente nas variantes que supostamente não conhecia bem. Numa conversa que se estendeu pela noite dentro, fomos trocando ideias para outras edições e para actividades conjuntas. Quando calhou referir que ia estar todo o Domingo nas palestras, fui logo requisitado para as controlar de forma a reduzir minimamente as preocupações da equipa que, ainda assim, se tinha de dividir por outras vinte salas. Uma tarefas que desempenhei com todo o gosto, muito orgulho e desrespeitando a única coisa que me pediram: manter dentro da hora marcada. É que entrando na parte das perguntas, não seria justo interromper as interacções que estavam a ser criadas só por ter passado uma hora. Mesmo assim, todos os atrasos no fecho couberam dentro do intervalo definido (havia meia hora entre sessões de propósito) e os do início foram propositados para se dar algum tempo às pessoas que vinham de outras actividades .
A melhor parte foi quando chegou o momento de desmontar o evento e, por ter uma longa viagem pela frente, escapei à maioria das tarefas de carga. Foi triste ter de sair a correr, deixando a equipa com a parte mais ingrata do trabalho, mas estando planeado com antecedência, para o ano certamente serei mais prestável.

Palestras - Dia 1

The Origins of Cosplay, Leonor Grácias, Associação Portuguesa de Cosplay
Hoje em dia o Carnaval é quando o homem quiser. As origens do Cosplay, a incrível qualidade dos cosplayers nacionais que se tornam artífices multi-facetados,  a despesa associada e o retorno que pode tardar uma década ou nunca chegar. A parte mais colorida e fotografada de todas as convenções revelou um pouco de si pela boca de uma figura de relevo do panorama nacional.

Presentation of H-Alt magazine, equipa da revista H-Alt
Sendo a FC na BD algo de nicho, houve tempo para destacar uma iniciativa que faz a diferença. A H-Alt apareceu para divulgar a BD de fantástico na lusofonia. Com artistas consagrados e alguns convertidos, e de distribuição online e gratuita, é um espaço a acompanhar com atenção.

From the Unknown to the Known: A Psychological Journey to Space and Sci-Fi, Psinove
Missões a Marte, isolamento, depressões e muitos medos. Uma dupla de psicólogos tentou aplicar conceitos de psicologia a cenários da exploração espacial. Parece que a sessão foi muito apreciada pelo público no geral, mas considerei os oradores pouco à vontade no tema do espaço e deixei a maior parte das perguntas para outra ocasião, quando os interlocutores tivessem algo de interessante a dizer sobre o tema.

The network as na intelligent super-organism, Luís Correia, FCUL
De que forma os computadores estão a adquirir conhecimento usando os humanos como escravos e de que forma os humanos podem usar essa informação em seu proveito. O eterno dilema sobre as capacidades extraordinárias que estamos a dar a quem nos vai tirar o lugar, desde o teste de Turing, até ao Deep Blue. Não pude assistir de início, mas o tema do machine learning já faz parte do meu dia-a-dia pelo que facilmente entrei a meio. Pelas opiniões recolhidas, foi a sessão mais apreciada do dia e podia ter durado mais algumas horas.

Let’s talk about Steampunk, Liga Steampunk de Lisboa e Províncias Ultramarinas
Uma sessão que começou com meia dúzia de pessoas familiarizadas com o tema, depressa encheu com um público que estava curioso para saber do que se tratava. Falou-se um pouco de tudo, desde as origens do conceito, até às suas várias vertentes e os eventos que Lisboa e Gaia preparam para esta comunidade em expansão.

Palestras - Dia 2

Videogames – profession of the future, Ivan Barroso, ETIC
Portugal tem uma tradição de videojogos. Só falta ganhar visibilidade no mapa mundial e isso pode ser conseguido tanto com multi-nacionais que se estão a instalar cá, com através de investidores estrangeiros, ou com um golpe de sorte de um miúdo numa garagem. Foram apresentadas as diferentes profissões dentro deste mundo, os eventos mais relevantes para quem se quer lançar neste negócio, e as lacunas que é preciso colmatar para que sejamos uma digna potência deste nicho de negócio por explorar.

Monsters, Metamorphoses and the “Drama of Cognition” in Science-Fiction. Two case-studies: The Fly of David Cronenberg and Solaris of Andrei Tarkovsky, Christopher Auretta, CIUHCT
O filme de Cronenberg é de culto, mas alguma vez o viram comparando com Frankenstein de Mary Shelley, ou Metamorfose de Kafka? Nesta palestra foi discutida a condição humana de um animal que tenta não o ser. E por uns momentos, o horrível tornou-se belo. Quem assistiu, dificilmente olhará para um bom filme com sendo apenas uma história. Porque quando há uma boa história e um bom realizador, tudo o que acontece tem um motivo escondido. Por isso é que Stanislaw Lem não gostou do filme “Solaris”.

Imperfect Love: Stories of human-machine relations, Maria Paula Diogo, CIUHCT
A inteligência artificial tem andado na ordem do dia, mas há quase cem anos que o homem teme os seres que cria através da ciência ou magia. Fomos numa viagem pela história dos autómatos desde Da Vinci e Drozz até ao monstro de Frankentein, Maria, Robocop, Replicantes e vários outros, num tema quase infinito onde a curiosidade humana e o medo do desconhecido andam de mãos dadas.

XXI Cuisine: Almost Fiction, Almost Science, Paulina Mata, FCT-UNL
A cozinha molecular tem andado na ordem do dia pelo que o workshop onde essa inovadora comida era confeccionada e provada, foi seguido por uma palestra sobre o estado da arte gastronómica. Desde a massa folhada ao chantilly de chocolate, desde o algodão doce com flores à espuma aromatizada, e muitas comidas loucas que só se achariam possíveis no País das Maravilhas, há todo um mundo de sabores por explorar e milhares de formas de os apresentar.

LARP: the Future of Roleplaying Games, Olisippo Obscura
Para quê andar a jogar computador e sonhar com realidade virtual, quando se pode viver uma aventura real? O fenómeno dos Live Action Role Playing Games tem sido um negócio em franco crescimento pelo globo, mas em Portugal há apenas 27 participantes. A ideia desta apresentação foi divulgar o que se faz (com inspiração em vampiros e Lovecraft por exemplo) e tentar angariar interessados para o grande jogo inspirado em Battlestar Galactica que será feito brevemente.

Heroes and Villains in SciFi: Thousand Faces  in an Universe of Places, Alexandra Martins, FPUL
Porque precisamos de heróis e vilões? O que define um herói e vilão? Porque mudam de lado e como têm sido retratados ao longo dos anos nos diferentes formatos? Estas perguntas e muitas outras não foram respondidas, pois a palestra adoptou um formato de conversa com opiniões trocadas num tema onde todas as opiniões são válidas por tudo ser relativo. Falou-se de Marvel Ultimate, Aquaman, Donald Duck, Heinlein, Snowden e tudo mais que calhasse. Quando acabou o tempo, a conversa continuou por mais meia hora e continuaria por dias a fio de tanto que há a dizer.

 


Conclusão
Se ainda não deu para perceber, é um evento de dimensão considerável. Podendo duplicar os participantes no Ano Um (o passa palavra deve bastar, mas é bom que a imprensa comece a reparar no que acontece e faça o seu trabalho) com um número de actividades comparável ao que vimos nestes dias, depressa será uma data incontornável do calendário cultural nacional.

O melhor:
A alegria inabalável da Liga Steampunk. São um grupo coeso e animado que fez a festa (até demasiado algumas vezes) e deu ao evento a vitalidade que doutra forma podia nunca ganhar. Já conheço alguns desde os tempos da EuroSteamCon 2012, mas mesmo quem não soubesse e ainda não saiba o que é o Steampunk decerto se lembra do grupo de pessoas com roupas estranhas que disparava pistolas e metralhadoras sempre que possível. A ficção-científica pode ser séria, mas também sabe ser divertida.

O pior:
Várias questões técnicas e burocráticas com o Técnico, que além de não ter cedido o melhor edifício para o que ia ser feito, não esvaziou as salas de estudo que envolviam o barulhento átrio, não tinha a projecção das salas a funcionar como devia e até o ar condicionado demorou a ligar. Demasiados problemas para uma instituição que tinha uma oportunidade de se auto-promover e associar a um evento relevante e dentro do conceito tecnológico e cultural que deviam apoiar. Podem ter sido surpreendidos com a dimensão do evento, mas se para o ano for igual, sugeria que a SciFiLx se mudasse para um lugar que seja mais digno.

A melhorar:
Num ano de homenagens óbvias (Leonard Nimoy, Back to the Future) faltou algo ou alguém mediático para cativar o público.

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