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Crítica a "Birdman"

el  quarta, 07 janeiro 2015 23:15 Escrito por 

or (The Unexpected Virtue of Ignorance).

Há filmes que nascem tortos e nunca se endireitam. E há aqueles que só podem existir de uma forma. Se há dois anos “The Congress” surpreendeu por pegar numa discreta Robin Wright e nos levar numa visita pela memórias individuais sobre os seus momentos áureos, a verdade é que com outra actriz do mesmo calibre se conseguiria um efeito muito semelhante. No fundo são como um demorado cameo de celebridades. Tem piada por ser sobre eles, com outro rosto seria o mesmo. A expressão “ninguém é insubstituível” é pouco agradável de se ouvir, todavia cada vez se prova mais verdadeira. Que o digam os produtores dos próximos filmes de Robin Wiliams e os de Bridget Jones.

Houve uma época em que Danny De Vito e Arnold Schwarzenegger dominaram o cinema e ninguém pensaria em substituir esses dois inimitáveis. Mas num filme produzido pelo próprio Arnie (“Last Action Hero”) insinuam que Stallone podia ter sido o Terminator e a verdade é que os argumentos escritos de propósito para eles que outros fizeram são às dezenas. Michael Keaton podia não estar no topo de forma, mas a verdade é que mesmo no seu auge não era primeira escolha de ninguém exceptuando Burton. Um dos papéis para o qual o convidaram especificamente foi como Ray Nicolette em “Out of Sight”, num regresso a uma personagem que já tinha sido dele (“Jackie Brown”). Se ele recusasse, seria outro actor com outra personagem de outro filme e seria igualmente memorável. Como se disse a propósito das guerras, a História é a versão que nos foi contada pelos vencedores. Tal como nos filmes, só a versão que foi rodada e exibida interessa. Quem ficou pelo caminho não será lembrado e prova disso está nos vencedores de Oscares que foram segunda e terceira escolha.

Voltando a Michael Keaton, o que poderia ele trazer de único a um filme? Não é o melhor actor da sua geração, não tem um corpo ou uma voz única, não tem nenhum talento escondido. O que tem em carteira que ninguém mais terá, é o facto de uma vez ter tido a coragem de arriscar e fazer um filme baseado em comics quando isso era coisa para crianças. O seu Batman ainda hoje é considerado o herói de eleição. Claro que o mesmo poderia ter sido feito com Christopher Reeve (RIP), mas enquanto o Super-Homem se foi degradando às mãos de um só actor para ter dois  regressos frouxos neste século, foram outros a destruir e a reerguer Batman. Keaton saiu na mó de cima.

Sendo os super-heróis o filão do momento para os blockbusters, um cineasta como Iñarritú pegar no tema era algo curioso. Primeiro por se centrar numa personagem, algo que experimentou em “Biutiful”, mas que não faz parte do estilo que definiu no início de carreira em obras complexas como “Babel” e “Amores Perros”. Segundo por ter esse elemento fantástico da figura poderosa. E “Birdman” não é nada disso. É o retrato de um homem que vive da glória do passado e tenta encontrar o seu lugar numa sociedade onde a fama é imediata mas fugaz. Riggan Thomson é um actor que em tempos foi Batman, perdão Batman. Agora quer provar o seu valor encenando, produzindo e actuando numa peça de teatro dramática. Claro que a vida real se sobrepõe à ficção e de forma visível: os problemas da filha com quem quer recuperar o tempo perdido; o agente que só pensa no dinheiro; o actor secundário que é tão brilhante como louco na exigência de uma encenação real; e o fantasma de Birdman que o persegue pedindo mais um capítulo da saga para mostrar a todos o que é ser um actor a sério. Não estamos perante um filme convencional. O que é aqui discutido não é o que significa ser actor e que tipo de trabalho deve um actor fazer. É o tipo de valores que a nossa sociedade valoriza. A fama mede-se em seguidores no Twitter. O sucesso em ser viral. Um actor clássico que faça teatro toda a vida memso que ganha dezenas de prémios, desde que mantenha um low profile nunca será ninguém. Um que vá fazer um filme de super-heróis, com a máquina de propaganda dos estúdios torna-se uma lenda da noite para o dia, ainda antes da rodagem começar. É esse mundo que Riggan abomina e Birdman adora. O conflito com o alter-ego tem momentos psicóticos, neuróticos e mesmo que permitam esboçar um sorriso, nunca são para rir. O tema é tratado de forma bela e séria, enquanto os tais problemas secundários servem de escape para o espectador e entram na mais convencional comédia negra.

A maior ironia será a cena em que discutem quem poderia entrar na peça e os bons actores estão todos ocupados a fazer filmes dos X-Men ou dos Avengers. A prova é que os seus actores no passado experimentaram também comics - Keaton, Edward Norton (Hulk), Naomi Watts (Tank Girl), Emma Stone (Spider-man) - e além de serem figuras incontornáveis do Cinema contemporâneo, provam-no com interpretações de topo.

O maior trunfo de “Birdman” é nunca sabermos o que é realidade e o que é ficção, num inteligente jogo de emoções aberto a diferentes interpretações. De uma forma arriscada, consegue ser um produto que terá algo diferente a dar a cada tipo de pessoa. Não deslumbrará todos (em especial quem for enganado pelo trailer com explosões), mas cada um terá algo que não esquecerá. Um dos filmes do ano de certeza absoluta.

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