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Crítica a "Nightcrawler"

el  sábado, 29 novembro 2014 18:10 Escrito por 

Lou Bloom: Who am I? I'm a hard worker. I set high goals and I've been told that I'm persistent.

Cinema e televisão podem parecer duas faces da mesma moeda, mas sabemos que a rivalidade é forte e sempre que possível atacam-se nos pontos mais fracos. Alguns filmes definiram o que é correcto pensar sobre o trabalho das cadeias televisivas para estupidificação das massas. Se “Truman Show” e o conceito de grande irmão finalmente transposto para a tela é o título mais conhecido, “Network” é o mais importante e galardoado. Em “Nightcrawler” cruzam-se as duas perspectivas. Por um lado o voyeurismo que atrai cada um para o pequeno ecrã em busca de algo insignificante na vida dos outros para dar sentido à própria vida. Por outro, a constante busca de algo chocante de forma a aumentar as audiências.


Esta é a história de Louis Bloom, um homem com imensa inteligência e nenhuns escrúpulos, que descobre nas imagens de acidentes um lucrativo negócio. A segunda lição que lhe ensinam é que quando mais sangue, melhor. O resto, ele aprende sozinho, superando e surpreendendo os mestres da área. Este repórter da noite, como é convenientemente chamado na versão portuguesa, é um criminoso de baixo nível. Um oportunista da pior espécie. Quando se apercebe da fortuna que está associada ao simples facto de estar no local de uma tragédia com uma câmara, vai-se tornar na única criatura mais reles que um paparazzi: um caçador de desgraças que é pago pelo número de tiros e pelos litros de sangue que consiga capturar em vídeo. E este ser desprezível vai ser responsável por muitos deles.

Tal género de personagem costuma ser entregue a actores pouco mediáticos. Os famosos parecem ter medo de ofender se usarem o seu estatuto para promover um filme que ataca a televisão. Por isso ver Jake Gyllenhaal a destruir o mito dos serviços noticiosos é especialmente eficaz. O seu desempenho é ainda mais incrível por se transfigurar num tipo normal, para depois revelar quão reles é, e depois nos reconquistar com um perfil completamente estudado e um plano tão bem estudado e minucioso, que consegue tudo o que quer. Uma personagem tão vil que se torna irresistível.
Claro que havendo um protagonista com todo este charme, seria conveniente um antagonista igualmente carismático. Alguém que defendesse tudo o que é bom e decente. Más notícias: não há ninguém assim. Há a produtora da televisão que é um pouco melhor. Há um ajudante que tem limites morais. E a polícia quer garantir que todos cumpram a lei, mas ninguém que faça mesmo frente a Louis Bloom e à sua Video Production News. Isto parece ser uma excelente moral. Haverá sempre pessoas que querem ver tragédia e sofrimento. Haverá sempre canais dispostos a passar qualquer coisa para ter audiências (em especial com a projecção que a Internet dá). Haverá sempre oportunistas a gerar conteúdos para esses canais e públicos. A lei não chega para descontar essa complicada máquina com milhões de peças. Cada um sabe de si, mas se pensarmos que a qualquer momento passamos da parte de trás para a frente das câmaras, talvez tenhamos mais cuidado com o que gravamos.

Um filme extremamente eficaz e que tende a melhorar com a idade, à medida que confirmamos que estamos a descer tão baixo como “Nightcrawler” nos avisou. Dentro de algumas décadas poderá ser visto como uma referência do que foi este nosso início do século XXI. Esperemos que nessa altura algo tenha mudado.

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