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Crítica a "Autómata"

el  segunda, 27 outubro 2014 01:00 Escrito por 

O anão a tentar trepar aos ombros dos gigantes.

O novo filme de Gabe Ibáñez entrou confiante num território binário. Não me refiro aos zeros e uns da informática e da robótica, mas ao sub-género da ficção-científica onde os filmes ou ficam consagrados como obras-primas, ou caem no esquecimento. Ibáñez sabia bem por onde ia pois começa marcando posição do estilo “estas são as minhas referências, agora vejam o meu filme”.
Começa por referir as novas regras axiomáticas dos androides: 1. Não fazer mal a seres vivos. 2. Não se alterar. Uma adaptação das de Isamov para não entrar em comparação com “Bicentennial Man” e “I, Robot” e com aquela ligeira variação n  segunda dará leitmotiv para o argumento. Após isso e logo na primeira cena o futuro distópico e ciberpunk de “Blade Runner” salta à vista. Mas quando o genérico inicial arranca, já os tons musical e narrativo mudaram para algo completamente distinto. “Automata” apelava aos fãs das duas correntes máximas da robótica, Isamov e Dick, sem se deixar prender nos territórios de nenhum deles.
A história acompanha Jacques Vaucan, um inspector de seguros da empresa fabricante de androides ROC. O seu trabalho é investigar relatos de máquinas defeituosas, descobrir o responsável pela sua manutenção, e assegurar que a máquina é reparada e esse conserto é pago por alguém que não o seu empregador. Há um pouco aquele toque de “Repo Men” onde se garante que não há ninguém a reparar androides ilegalmente, contrariando o que o contrato estipula. Agora que vai ser pai ele quer deixar essa vida. Até que um dia um relatório de robot a reparar-se autonomamente o leva a ver um robot a suicidar-se, daí passa para um que consegue causar dor… estarão as regras a falhar?
Aqui começa o terreno perigoso. Estamos num mundo desertificado pela seca, a Humanidade está em risco. Não é altura para questionar qual o propósito da nossa existência. A lógica diz-nos que um androide é mais resistente e duradouro do que um ser humano e o intelecto mecânico sabe-o, mas estaremos preparados para o ouvir de uma boca metálica?
Blade Runner” fez-nos duvidar da nossa humanidade. “Bicentennial Man” e “Artificial Inteligence: AI” fizeram-nos questionar conceitos que achávamos humanos como vida e amor. “I, Robot” mostrou o futuro. O nosso e o deles. Em “Autómata” tentou-se juntar tudo. Jacq tal como Deckard e Spooner quer saber a verdade e a sua missão de proteger a humanidade vai sendo moldada à medida que recebe novas informações. Cleo tem o papel de Sonny, Rachael e Gigolo Joe, converter uma mente à causa. A falha no filme será ter tido um humano tão suave perante um androide tão inflexível. Um coração mole perante uma lógica inabalável. Assim a espécie, tal como aquele indivíduo, não tem hipóteses. Essa visão pessimista alienará os espectadores defensores da humanidade. Acreditem que ainda há muitos.
Onde o filme se desgraça é na intriga secundária. Como se interessasse à empresa silenciar a todo o custo os robots que desaparecem da cidade sem ser vistos. Apesar de a forma escolhida não ser a melhor, esse ponto de vista era importante. Como sempre, a ignorância humana leva-nos a começar uma guerra que perdemos há muitos anos. Porque não seguem o conselho do célebre cérebro robótico Jacob e admitem que “the only winning move, is not to play”? Se Deus criou o Homem à sua imagem, já foi substituído por ele. Se o Homem educar um Macaco ou criar uma Máquina à sua semelhança, também seremos substituídos por eles. É assim que a vida evolui. O Homem não é a espécie dominante desde sempre e não a será para sempre. A questão é se estaremos de boas ou más relações com o nosso sucessor.

Do ponto de vista sonoro, visual e de elenco não há nada de mau a corrigir. A única falha a apontar é no argumento. Tinha os ingredientes certos, mas a mistura não correu nada bem e arruinou o resulado final. É que sendo um filme de nicho, será visto por quem já leu muito e viu tudo o que serviu de inspiração. O segredo muito bem guardado é facilmente adivinhado pelos entusiastas do género que tirarão as suas variadas conclusões. Será bastante interessante discutir este filme e outros dentro de alguns anos. Porque por enquanto, foi apenas uma tentativa falhada de se fazer ouvir e fica esmagado pelo peso das comparações. Tem de amadurecer e ir construindo a sua reputação lentamente.

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