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Crítica a "Open Windows"

el  sábado, 06 setembro 2014 15:30 Escrito por 

quando o terror está à espreita

O último fim-de-semana de Agosto de 2014 ficou marcado por um escândalo que envolveu uma gigantesca invasão de privacidade de uma centena de celebridades. Enquanto alguns dos comuns mortais se deleitaram com as fotografias conseguidas de forma ilícita, outros censuraram o roubo. Entre as vítimas uns entraram em pânico, outros negaram a sua veracidade, outros tentaram brincar com o tema. Mas antes de tudo isso, já Nacho Vigalondo tinha explorado o tema do voyeurismo e levado a constante vigilância das celebridades por via electrónica a novos níveis. O seu título, “Open Windows”.

Jill Goddard é uma actriz, a estrela do momento. Nick Chambers é um dos seus fãs e gere um dos mais completos blogs dedicados à vedeta. Num evento de apresentação do mais recente filme de Jill, Nick, como vencedor de um passatempo, aguardava o primeiro prémio, um jantar com a sua estrela de estimação. Mas uma chamada vinda do agente dela em cima do momento, diz-lhe que o jantar foi cancelado, ela quer ir descansar. Nick fica abalado, mas o homem do outro lado da linha oferece-lhe algo como compensação, ter acesso à webcam do telemóvel de Jill. Curioso e frustrado, Nick aceita. Esse é o primeiro passo para o interior de uma espiral de intriga e perseguição onde tecnologia e fanatismo andam de mãos dadas.

 

Como é costume nos filmes multi-facetados, vamos por partes.

Jill - era uma mulher normal, mas como está constantemente monitorizada tem de manter alguns segredos para si mesma. Confia do telemóvel como qualquer um de nós, mas não lhe é dada essa liberdade. Já nem sequer lhe é dado o direito de ser ela mesma. Agora pertence ao mundo e tem de ser constantemente uma personagem do agrado de todos e sem direito a segundos takes. Sempre diante das câmaras. Sempre a actuar. Sempre perfeita ou adeus e acabou-se o sonho. Quem aguenta tal pressão?

Nick - blogger, fã de uma estrela, conhecedor de imensos factos inúteis sobre pessoas do moderno Olimpo. Muitos dos leitores se poderão identificar com ele (estou-me a imaginar a fazer a mesma figura com uma meia dúzia de actrizes que por aí andam), mas juntem a agravante de estar no mesmo país, por vezes na mesma cidade que ela. De que forma isso não transtornaria uma mente no limiar da loucura induzida pelos media?

Não serão ambos e em igual grau vítimas da sociedade? Tanto quem ocupa as páginas das revistas como quem as compra fazem parte de um jogo. O século XXI apenas veio mudar o formato em que a imagem é vendida (as revistas não são mais que um termo metafórico).

O “agente” - de alguma forma simboliza o ladrão dos tempos modernos. Invadindo a privacidade de uma pessoa que não considera mais do que um objecto das suas fantasias mórbidas. Brincando com as vidas dos outros, ignorando a lei em toda a sua extensão. O que a sinopse antecipa é apenas uma parte mínima das suas infracções que escalam de forma inimaginável. É o mal personificado e com uma aura sobre-humana pois, se informação é poder, ele tem super-poderes.

Hackers - Chord não é o único hacker de serviço pois Nick vai falar com outros. E antes que digam “Não podia deixar de ser. Estão envolvidos em tudo o que é mau!” recordo que é um filme sobre invasão de privacidade digital, mas não só. É também sobre manipulação. E da forma que inventa no que se refere a tecnologia, é quase como se fosse uma obra de fantasia. Nesse caso, aqui os hackers são os mágicos de serviço, controlando tudo remotamente, adivinhando o futuro, brincando com os mortais ignorantes. Longe dos feitos reais, mas perto da imagem mística que a população tem.

 

Como o verbo “inventar” deve ter passado despercebido, reforço a mensagem: se percebem realmente de informática (seja redes, processamento de imagem ou qualquer outro nicho) evitem este filme. É tanta desinformação que não conseguem apreciar a história. Se, pelo contrário, acreditam que o impossível é apenas uma questão de tempo e os computadores ou fazem ou farão tudo, então sigam para o verem descansados. Porque retirando os exageros - chamemos liberdades criativas - é um filme cativante, com questões pertinentes e que chegou no momento certo.

Vigalondo tem fama de ser um cineasta transgressor e aqui demonstra-o novamente. Na onda do que vimos em “Rear Window” (Hitchcock, 1954) para a imagem e “Blow Out” (De Palma, 1981) para o som, chega agora “Open Windows” para o digital. No entanto, o problema deste tema é que é bastante mais específico do que os filmes atrás referidos. Poucas pessoas andarão a espiar os vizinhos com binóculos ou os anda a escutar em busca de provas incriminatórias, mas hoje em dia toda a gente anda com telemóvel e encontra online aplicações para activar o seu espião interior. Como tal, mostrar vários ecrãs de um computador e saltar entre imagens causa confusão no espectador, pois é também um utilizador de computadores, acostumado a organizar o ecrã à sua maneira. Talvez por isso “Open Windows” tivesse funcionado melhor num formato transmedia e multi-plataforma onde as pessoas pudessem interagir na sala de cinema via telemóvel, recebendo as informações ao seu próprio ritmo, vendo o que queriam. Perderiam muita informação? Sim, mas quem vê o filme também não fica a saber tudo o que devia, é mantido na ignorância até ao final.

É um filme com muito potencial que alguns não saberão apreciar. Estou nesse grupo, mas sei separar as coisas e reconheço o seu valor.

 

Como nota final destacaria o leque interpretativo de Elijah Wood que todos os anos nos surpreende num novo estilo de filme e personagem. Por outro lado Sasha Grey não é muito credível como a actriz com pudor em se despir, mas a verdade é que nenhuma outra aceitaria fazer tal papel. Talvez as coisas tenham mudado nestes dias. O que mudou de certeza é que anda um hacker algures por aí, que é mais temido do que qualquer criatura do nosso imaginário. A sua arma é um teclado e tem causado muita dor. “Open Windows” antecipou-o, mas não chegou a tempo de prevenir as vítimas.

 

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