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Crítica a "The Martian"

el  terça, 06 outubro 2015 22:00 Escrito por 

A minha nova frase predilecta: “I'm going to have to science the shit out of this.”

Cresci numa era em que a palavra Espaço costumava ser seguida pela expressão “a última fronteira”. Hoje em dia parece muito fácil ir aos outros planetas, mas é tudo ficção e imaginação. As missões humanamente possíveis continuam a ser muito limitadas. Mas também cresci a ouvir que no espaço ninguém nos ouve gritar. E se há alguém capaz de revitalizar um género, e especialmente no amaldiçoado planeta vermelho que reduz os resultados de bilheteiras a poeira espacial, seria o homem que fez de forma consecutiva um filme para mudar o terror (Alien), um filme para mudar a FC (Blade Runner) e um filme para mudar a fantasia (Legend). Ridley Scott já tinha voltado ao espaço com “Prometheus” no que foi um regresso ao universo de Alien, mas faltava algo de novo. É importante frisar que os últimos filmes do realizador não têm sido adorados pela crítica ou público, passando despercebidos comparativamente a outras obras deste mago. Uns diziam que perdeu o toque, outros culpavam a idade, outros diziam que tinha de retomar o controlo total da produção. Pegar num livro não é ter o controlo total da história, mas a adaptação do livro de Andy Weir era um projecto de sonho para qualquer um - muito arriscado, mas mesmo assim de sonho - e por isso correu todos os riscos possíveis numa total indiferença pelo que já tinha sido feito sobre o espaço. Se não foi feito por Scott, não foi bem feito.


O livro tem sido descrito como “aquela cena do ‘Apollo 13’ em que tentam fazer de Macgyver, levada ao extremo”. Para mim isso basta. A história é sobre a terceira de cinco missões a Marte. As viagens demoram dois anos, mas começam a ser frequentes e já não é um mundo desconhecido. Quando a equipa estava a fazer umas recolhas de amostras de solo, detecta uma forte tempestade e tem de abortar a missão, antecipando o regresso à Terra. Na última caminhada até ao módulo, um dos astronautas é trespassado por uma antena e, sem sinais vitais ou de rádio, é dado como morto e deixado perdido no meio da tempestade de pó. No dia seguinte, ele acorda. Sozinho. Em Marte. Está a uma distância média de 80 milhões de kilómetros de casa e tem os humanos mais próximos a afastarem-se a uma velocidade relativa de 2km/s. Ah, e sem qualquer forma de comunicação. A sua única esperança de vida é esperar 4 anos pela nave seguinte. Nave essa que vai aterrar a mais de 2300km dele. E só tem comida para um mês. É caso para dizer que está f... lixado.

Se pensarmos em “2001” não só como uma obra sobre a busca da Humanidade, mas também de exploração espacial, os outros dois títulos mais conhecidos sobre o espaço com partida da Terra, são facilmente “Contacto” e “Armageddon”. Já nesta década podemos listar “Gravity”, “Guardians of the Galaxy” e “Interstellar”. Vamos por partes ver como tudo isso e muito mais é aproveitado neste cocktail que mete vários outros géneros na misturadora. [e preparem-se para spoilers ligeiros em relação a vários filmes pois assumo que quem vê filmes sobre o espaço, não perde um]


Ora começando pelas semelhanças, se em 2013 e 2014 saíram filmes que todos viram sobre o espaço, é sensato evitar falar disso pelo terceiro ano consecutivo. Por isso Jessica Chastain e Matt Damon voltarem a vestir fatos da NASA deveria ser proibido. E falando em Matt Damon, não acham que já o perderam vezes suficientes? Seja como soldado Ryan, ou como astronauta, o pobre homem tem tido muito azar, e muita compreensão dos camaradas que o vão sempre procurar. Por falar em perder pessoas, os companheiros de Kate Mara em “Fantastic Four” também partem numa viagem e deixam alguém para trás como morto. Um conselho de amigo: se ela estiver nem que remotamente envolvida na missão, não partam para mundos desconhecidos. É muito provável que vos deixem para lá esquecido durante uns meses ou anos. Depois há a velha questão de partir uma equipa internacional e precisarem sempre de ajuda de mais alguém, sejam os japoneses de “Contacto”, os russos de “Armageddon”, ou os chineses aqui, a NASA nunca consegue fazer tudo sem umas peças extra, mostrando que os americanos não são assim tão detentores de todo o conhecimento e equipamento, e no fundo todos gostam deles. Tal como vimos em “The Big Miracle” onde também queriam salvar uma criatura fofinha sob os olhares do mundo.

Passando para a componente sonora, percebo que cada astronauta tenha os seus gostos particulares e que atendendo à idade levem alguns dos êxitos dos anos 80, mas tentarem tornar a música disco pirosa na banda sonora do filme quando uma Awesome Mix foi o trunfo de “Guardians of the Galaxy”, é metido a ferros e fica um bocadinho mal. Por sorte é a única componente realmente desajustada no todo do filme e nem os momentos finais  à la “Gravity” parecem mal depois de tudo aquilo pelo que Watney passa. É que tentar fazer de “The Martian” uma comédia quando era tão mais fácil mantê-lo no registo melodramático de [todos os outros filmes], fica estranho.


Esquecendo todas as semelhanças que daqui a cem anos ninguém perceberá como são próximas, o que temos é um filme sobre a única qualidade boa da espécie humana: a capacidade de sobreviver. Quando uma tempestade destrói as colheitas, plantamos de novo. Se o solo não der mais nada, mudamos de poiso. Se não chover inventamos nuvens artificiais e se nos tirassem o Sol arranjaríamos forma de acender um novo. O ser humano é resiliente e teimoso. Não é por estar fora do seu ambiente natural que vai ser menos decidido. Tudo o que precisam de saber para sobreviver num ambiente inóspito pode ser resumido a três livros. Se forem para uma ilha deserta, “Robinson Crusoé”. Se forem para um planeta desconhecido semelhante à Terra, “Tunnel in the Sky”. Se forem para uma estação no Árctico ou uma base espacial abandonada, “The Martian”. Mark é humano e acima de tudo é um cientista. Isso quer dizer que ele sabe tudo o que é importante sobre a vida. Após tantos filmes a gabar os militares e os engenheiros, é bom ver este regresso ao senso comum. Um cientista tem gosto pelo conhecimento e portanto não se fica por uma única área do saber. Acaba a perceber um pouco de tudo e entre os conhecimentos de biologia, química, física e informática, é o perfeito colonizador de novos mundos. Passar da teoria à prática é uma questão de engenho e dizem que a necessidade aguça essa arte. Aos poucos vamos vendo como ele decompõe o problema grande, assustador e irresolúvel - "estou sozinho em Marte e vou morrer" - em probleminhas que pode resolver pensando um pouco. “Vamos tratar de arranjar comida, água e oxigénio”. “Vamos ver como me consigo deslocar para onde me possam dar boleia”. “Vamos dizer que estou vivo”... Essa luta constante pela vida é o que nos faz adorar a personagem. Matt Damon tem aquele ar inocente que nos faz querer protegê-lo desde quando era Will Hunting ou Private Ryan. Nem os anos passados como Bourne mudaram isso.


Bem longe, está a NASA com dois géneros de pessoas. Os que querem proteger a imagem da empresa e os subsídios, e os que querem salvar o astronauta não importa como. Essas duas facções terão de chegar a um entendimento para fazerem o que for possível pelo seu homem. Deixá-lo morrer não é bom para ninguém, a questão é como o salvam. Depois há a população da Terra, que reza por ele e vai mandando sugestões sobre o que a NASA e Watney devem fazer. Uma faceta pouco explorada que imaginamos facilmente devido aos recentes casos de astronautas nas redes sociais. E finalmente, a tripulação da missão Ares 3 que está no meio do espaço com um sentimento de culpa. São ao mesmo tempo os humanos mais próximos, mas os que menos o podem ajudar. Os que mais o estimam e que mais sofrem com o seu isolamento e que de bom grado trocariam de lugar com ele. Um espectador consegue imaginar o que sente cada uma destas pessoas e secretamente desejar estar no lugar de algum dos envolvidos para poder tomar todas aquelas mesmas decisões inevitáveis. Incluindo as que são consideradas traição.


Por tudo isso, “The Martian” é um filme completo. Explora com peso e medida o found footage, mas não descura a filmagem convencional. Tem algumas cenas estranhas (como é que passa ano e meio sem tomar banho, mas a viseira do fato está sempre brilhante no meio de tempestades de areia?) e tem uma terrível selecção musical, mas tecnicamente e narrativamente é o filme que queriamos ver e a melhor publicidade a um livro que devia ser de leitura obrigatória. Enquanto “Gravity” era sobre o belo, solitário e frio espaço, e “Interstellar” era sobre partir para encontrar a Humanidade, “The Martian” é sobre acreditar que o impossível é possível. E Matt Damon apesar de começar por mostrar que tem todso os músculos bem desenvolvidos, prova que o único exercício que importa ter em dia é o cerebral. Esperemos que com todas estas influências surja uma nova geração de astrónomos e astronautas, mas também de cientistas e sonhadores. Porque o que falta são pessoas capazes de acreditar e de inventar para fazer deste planeta (e talvez alguns outros) um lugar adequado à vida humana. Continuemos a sonhar.

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