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A reinvenção do mito dos "Thundercats"

el  quarta, 15 outubro 2014 19:20 Escrito por 

Em 2015 celebraremos os 30 anos da série.

Texto nomeado ao prémio TCN de Melhor Crítica TV. Para votarem, dirijam-se ao CinemaXunga.

 

Durante a infância, várias das séries a que assistíamos tornaram-se icónicas. Cada geração fica feliz em afirmar como teve as melhores séries, mas a verdade é que poucos se atrevem a revê-las passados uns anos, quando a idade nos dá um outro discernimento. Quem o faz começa a perder a convicção e muitos dos argumentos. Agora tenho nova prova disso.

Tive a infeliz ideia de rever uma série que, não sendo das minhas preferidas, associava a emoções fortes. A descupa é que “Thundercats” está sempre na calha para uma adaptação cinematográfica e assim ia adiantando trabalho quando esse momento chegasse.

O que me lembrava era bastante vago. Conhecia as personagens principais por ter uma bd com o episódio “The Time Capsule”, lembrava-me de um chamamento da espada e de um vilão maquiavélico como poucos, mas ao ver que havia mais de cem episódios fiquei muito curioso como tinham podido prolongar tanto uma história tão limitada. A resposta é simples: fillers. Sabem aqueles malvados episódios que em nada contribuem para a história e vão sendo escritos para ocupar o tempo do anime até chegar uma nova história vinda do manga? Pois aqui, mesmo sendo esta série o material original, há várias dezenas de episódios que em nada desenvolvem o fio narrativo. O pior é que nem mesmo esses estão alinhados e, o que tentam fazer sem impacto, entra em contradição com que o que será feito no episódio seguinte ou dois depois. Estamos a falar de uma série que, no formato original, era exibida todos os dias da semana e foi concentrada em duas temporadas. Era impossível os espectadores não reparem no contrasenso.

 

Entre os imensos argumentistas há alguns que se destacam. Leonard Starr, um dos criadores da série, é de confiança. Peter Lawrence e William Overgard também conseguiram episódios bons, mas entre os criativos irregulares poucos são memoráveis. Nota-se uma tendência para repetir vilões, nenhum cuidado nas personagens secundárias, total desinteresse em desenvolver as relações entre as personagens, com excepção de Snarf e Lion-O que passam a primeira temporada colados como uma ama preocupada e o seu bebé aventureiro.

 

A primeira temporada apresenta-nos os Thundercats e os seus arqui-inimigos, os mutantes. Mutação em relação a quê? Não interessa, são mutantes. Quando os mutantes destroem Thundera, os nosso heróis partem para um novo planeta, sempre perseguidos pelos malvados opositores. Uma viagem de muitos anos leva-os a Third Earth, um planeta tranquilo onde os espíritos do Mal estão representadas em Mumm-Ra, uma múmia de idade indefinida que desperta ao sentir o poder do Olho de Thundera e volta a fazer o mal recrutando para isso os Mutantes. Os Thundercats, como bons defensores da Justiça, Verdade, Honra e Lealdade, vão enfrentar todos aqueles que fazem o mal. Em especial os que começam a fazer o mal com a sua chegada.

Com a ajuda dos ursos metálicos Berbils, das mulheres-guerreiras, do homem das neves com o seu gigantesco gato, de um samurai e um ou outro aliado ocasional, os gatos guerreiros vão enfrentar as terríveis forças do mal desse planeta, as que os perseguem vindas de outro mundo, as vindas de outros tempos, e as vindas do espaço sideral onde a agente da lei Mandora faz os possíveis por aplicar a lei mas só consegue passar multas de excesso de velocidade..

O episódio normal tem 22 minutos, em que os primeiros 80 segundos são genérico e título, o útimo minuto é mais genérico, e o intervalo é rigorosamente ao minuto 11. Por vezes os últimos dois minutos de episódio eram com uma lição moral em jeito de piada para gastar tempo. Por isso cada um tem 15 a 19 minutos para desenvolver uma história com princípio, meio e fim. Era claramente pouco.

Com muito boa intenção, mas sem qualquer fio narrativo, ao fim de cinco ou seis episódios não há nada de novo a mostrar, e conseguem um episódio bom por semana. O problema é que não é a um dia certo e é preciso ir vendo tudo na esperança de conseguir um desses.

A receita para cada episódio é simples. Alguém fica em perigo. Lion-O é alertado pelo espada e corre sozinho em auxílio. Ao ver-se em problemas usa a espada para chegarem os restantes membros da equipa e ficam todos em perigo. Depois aparece o espírito de Jaga que lhe diz para usar a espada e o mal é derrotado. Talvez isto seja demasiado simplista, mas é o que parece.

Até que, ao episódio 37, parecem ter descoberto a fórmula. Fazem um especial dividido em cinco partes (até então o maior tinha sido em dois partes e era caso único) onde Lion-O tem de superar diferentes provas para se afirmar como líder e governante dos Thundercats. Em nenhum deles pode usar a espada. Finalmente algo de original! Estão obviamente desalinhados com a ordem de exibição pois era suposto serem sequenciais e não o foram. Há entre três e dez episódios a separar cada capítulo. Desgraçadamente, o último não coincide com o final da temporada. Se o fizesse, seria o perfeito final de temporada, assim fica esquecido no meio de todos os outros. Para encerrar o ano, lembraram-se de um museu armadilhado com alguns inimigos pouco icónicos. Um fracasso.

 

A segunda temporada ameaçava ser mais do mesmo. Como podiam continuar a fazer episódios sobre nada? Mas notava-se uma diferença nos títulos. Uma aposta clara em fazer blocos de cinco episódios. Se seguissem o exemplo de “Lion-O's Anointment”, esta temporada podia ser bastante engraçada. Pois a surpresa ao primeiro episódio era ainda maior. Mais Thundercats! E no segundo bloco chegaram mais inimigos, mais Smarfs, todo um novo leque de hipóteses com imenso potencial. Vinham em blocos de cinco episódios, dando quase uma hora de história. Esse sol de pouca duração bastou para a temporada começar mais animada. Os episódios individuais que se seguiram não eram maus até porque começava a haver uma história maior e os episódios estavam ligados. Quando o Mal é derrotado e os destroços de Thundera se reagrupam, permitindo aos Thundercats voltar ao seu planeta, a série podia ter terminado. Não o fizeram e sofremos ao longo de mais quinze episódios inúteis e que só desvalorizam o que tinha sido feito antes. Aliás, o episódio final parece repescado entre os recusados. É uma afronta terminarem de tal forma quando tiveram tantas oportunidades, inclusivamente com a morte do Mumm-Ra e o seu despedimento pelos espíritos malignos que lhe concediam o poder.

 

Entre os pontos positivos que “Thundercats” traz, algures no início da série aprendemos os valores pelos quais se regem, mas ao fim de cem episódios a mensagem perdeu-se nas memórias. A ecologia é uma novidade que entretanto ganha importância, mas sempre como um intruso, não se enquadrou a tempo na narrativa. A animação mantém o nível do início ao fim e isso é de louvar. Mostra que não eram uma equipa inexperiente com muito para aprender, ou que tivessem despachado o trabalho a meio para alguém que o fizesse mais em conta.

Entre os pontos negativos está a total falta de sentido. Em especial no que trata de tempos, distâncias, sobrevivência no espaço, voo espacial (com a mesma tecnologia começaram a fazer a viagem inter-planetária em horas em vez de anos?)... é melhor parar por aqui.

Depois perde-se entre as criaturas milenares e as mecânicas, usando os poderes do olho como último recurso para tudo. A já referida ausência de noção do que o argumentista do lado faz também é embaraçosa. Isso parecia remediado e no fim volta a ruir.

 

Com um leque mais seleccionado de episódios, na ordem dos 50 em vez dos 130, poderia ter saído um produto em condições. No entanto, a ser mantida a aposta no filme, diria que tem tudo para funcionar. As histórias de uma hora eram todas boas. Mantinham a emoção tanto vendo uma semana depois como no minuto seguinte. Talvez estivesse destinado a ser assim, mas Thundercats só funciona em formatos longos.

 

 


 

Em 2011 o Cartoon Network recuperou a série. Não foi uma mera reemissão de episódios, mas uma reinvenção em grande. As personagens foram redesenhadas, as relações entre elas foram repensadas, Third Earth e a sociedade dos Thundercats foram totalmente transformadas. Ao ver a animação inicial fiquei algo receoso, mas com o enorme twist dado à história, “Thundercats” apresentou-se como um produto novo e claramente distinto do que conheciamos.

Esta nova Thundera tem vários povos em coexistência, onde os gatos se destacam pelo seu poderio militar. A grande diferença é que a tecnologia é uma coisa lendária e o jovem Lion-O parece ser dos poucos interessados nela. A grande força do exército com que oprimem os demais, reside no clero, um grupo liderado por Jaga, onde cada guerreiro teve uma preparação para combate tão surpreendente que parece mágico. Quando o castelo é atacado pelos lagartos com tecnologia bélica imparável, a sua sociedade medieval é arrasada e Lion-O terá de procurar o mais mítico dos objectos para lhes fazer frente e salvar o seu povo. Apoiado por alguns resistentes, vai percorrer o planeta, fugindo dos velhos inimigos e fazendo novos amigos, numa missão que só termina quando recuperar o trono e o território que o seu pai morreu a defender.

Esta reimaginação das personagens deu-lhes um visual muito diferente e alterou bastante os protagonismos. Por exemplo, Snarf tornou-se definitivamente uma mascote. É inteligente, mas não fala. Panthro, o mecânico, foi desviado para outro papel nesta sociedade não-tecnológica. Todos os outros são bem mais novos e impulsivos. No fundo, encaixaram em personagens-tipo de várias outras séries de aventuras, tendo apenas um leve cunho dos Thundercats de outrora. Não é que isso seja mau, uma série feita no espírito dos anos 80 não funcionaria em 2011. Claro que isso teria funcionado melhor se usassem uma história original, mas em quase todos os episódios, mesmo que não se identificasse a proveniência daquela ideia, pareceria muito familiar a algo visto nos anos 80.

Do lado dos vilões Mumm-Ra está na mesma e os seus mutantes continuam muito semelhantes, apesar de só Slythe estar de início. Isso é uma prova de como tinham um vilão em condições. Driller e Ratar-O também aparecem (com muito mais sentido que na série original).

Quanto à narrativa, é bem mais eficaz neste formato. Há uma linha condutora e tudo o que acontece num episódio tem impacto nos seguintes. Entre os 26 episódios da primeira temporada só por duas vezes separam a equipa (primeiro Kit e Kat que exploram a cidade dos cães sozinhos, depois Lion-O e Tygra exploram uma montanha) e as duas sub-equipas têm direito a episódios próprios. Com tudo isso, ocorreu uma única falha temporal que tenha reparado (o chicote que Tygra recebe no episódio 17 não é usado no 20, mas é no 26), bem melhor do que as dezenas que aconteceram na série original.

Essa narrativa tem como vantagem que estava a ir a bom ritmo. Alternando a história presente com alguns flashbacks, tinhamos ficado a conhecer muito bem a história de praticamente todas as personagens. No fim da temporada, os objectivos estava a cerca de sessenta por cento por isso tudo indicava que pudessem terminar na seguinte. Não tiveram essa oportunidade. É que no seu horário eram os preferidos do público... no escalão dos 18-34 anos. Ou seja, era vista pelos adultos que se lembravam da original, não pelos novos espectadores. Talvez porque havia demasiadas mortes para um público de 12 anos. E o rumo dado às personagens não era apelativo para quem não estivesse chocado com as profundas diferenças. Se pensarmos que muitos dos episódios foram inspirados em filmes e séries de há 30 ou 40 anos, sendo para um público jovem essa fonte de inspiração não seria facilmente reconhecida, mas para os mais velhos as aventuras não serão tão cativantes.

 

Para o próximo reboot, que tal trazerem as personagens com o desenho original, com as personalidades originais, mas terem uma história mais despachada e pensada do início ao fim como em 2011? É que só acertar em metade das coisas de cada vez, faz com que o todo não funcione. E caso tenham dúvidas, podem manter a violência da segunda que já temos idade para aguentar.

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