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Cobertura da Semana de Terror de San Sebastian 2013

el  sábado, 18 outubro 2014 09:45 Escrito por 

Com a aproximação de nova edição recordemos a do ano passado.

A cidade

San Sebastián, ou Donostia em Basco, é um destino único. Uma famosa baía resguarda a praia da Concha, a mais popular praia urbana de Espanha, mas não é estranho ver surfistas que, esteja frio ou calor, atravessam a cidade num fato térmico e com a prancha debaixo do braço, em busca das ondas matinais junto às areias da praia Zurriola. A saúde e o desporto são preocupações partilhadas por todos. Em cada quarteirão da parte velha há pelo menos uma farmácia e uma frutaria, e toda a cidade é atravessada por práticas vias para bicicleta. Localizada no sopé do verdeante Monte Urgull, e com vários outros vastos espaços verdes espalhados pelo mapa, não há muitas cidades mais saudáveis que San Sebastián.

Destino turístico por excelência, não interessa o tempo ou o dia da semana, pois há sempre muitos turistas. Nem que venham apenas em busca de igrejas, têm sítios para visitar durante vários dias. A concentração desses templos é digna de uma cidade com nome de santo. Ouve-se falar especialmente em francês. Não é de estranhar, a fronteira fica a vinte minutos de carro e já no século XIX a influência francesa deixou a sua marca na arquitectura. No entanto, essa abertura ao exterior em nada afecta a identidade dos locais. As pessoas têm hábitos de socialização mais frequente do que o habitual, e qualquer estabelecimento que sirva pintxos é muito frequentado desde o meio da tarde até à noite.

Em 2016 será Capital Europeia da Cultura, mas a sua importância cultural é inegável há muito tempo. Anualmente, no fim de Setembro, San Sebastián alberga um dos quatro grandes festivais europeus (e mundiais) de Cinema. Um daqueles eventos que se tornam maiores do que o local onde se realizam e “roubam” o nome para uso próprio com muita pompa e circunstância. Um mês depois tem outro festival. Também de cinema, não tão conhecido mundialmente, sem passadeiras vermelhas nem convidados milionários, mas talvez ainda mais estimado pelos locais. É a Semana do Cinema Fantástico e de Horror, e em 2014 atingirá a bela marca das vinte e cinco edições.

Não há outro festival assim

Na eterna sombra do grande festival de San Sebastián por um lado, e do festival do fantástico da Catalunha por outro, não sobra muito espaço de afirmação para a Semana de San Sebastián. Se isso fosse completamente verdade, não teria durado tantos anos nem sobrevivido à saída do histórico director. O segredo é que, não pretendendo competir contra eles em orçamento ou em mediatismo, a Semana tem para oferecer algo mais precioso. Algo que todos os festivais pagariam para ter, se estivesse à venda. O que a Semana tem de único é o espírito. Não falo de fantasmas ou assombrações, mas do colectivo que, sessão após sessão, garante que é absolutamente impossível sair desapontado do filme. Se o filme for bom, é do filme que se desfruta. Se for mau, é do espectáculo que é assistir juntos dos Bascos.

No entanto, se querem assistir ao festival apenas de passagem, cuidado com a data escolhida. Nem todas as noites são de enorme festa. Depois de uma semana de festival com várias maratonas nocturnas, e numa sessão das quatro da manhã, é normal que grande parte da plateia já se tenha rendido ao sono. Todavia, mesmo meio adormecidos marcam sonora presença e, uma vez por outra, ainda fazem a sua piada. Por isso, não deixem a ida ao certame para a última noite. Em qualquer outro dia ou sessão terão direito ao espectáculo de um colectivo que começa a merecer um filme próprio. Até porque se forem demasiado no fim, precisam de esperar um ano para repetir.

Curiosamente, é dos poucos festivais que não tem uma explosão de aplausos no spot que passa antes do filme. Talvez por isso o seu público nos consiga surpreender tanto. Não são sprinters que esgotam os seus aplausos no primeiro minuto para depois entrar em estado letárgico. São espectadores de longa distância.

Outro detalhe muito interessante que este festival tem de distinto, é o painel mesmo à entrada da sala onde vão revelando diariamente as notas obtidas pelos filmes nas votações em curso. Assim quem for ver um filme, já sabe quais não irão ganhar, e quem for apresentar o seu filme, tem uma ideia bastante boa da concorrência que enfrenta.

O que acontece em San Sebastián, só acontece em San Sebastián

Os nossos leitores, como bons amantes de cinema, devem ter percebido que há basicamente quatro formas de assistir a filmes. A normal é chegar à sala, vê-lo mudo e sair calado, sem fazer barulho com as pipocas para não incomodar os demais. A segunda é ir com disposição para namorar e estar mais entretido com a pessoa que nos acompanha do que com a projecção. A terceira é quando se leva crianças e temos de estar constantemente a explicar-lhes coisas e a tomar conta delas, evitando fazer barulho. Se todas elas podem ser mais ou menos replicadas em casa, a quarta forma só se deve fazer em casa. Nessa reúne-se os amigos, dá-se-lhes muita cerveja, põe-se a dar um qualquer filme série B e será um momento bem passado, mesmo que ninguém consiga garantir que se lembre do filme quando a ressaca terminar.

Se estiverem na Semana, provavelmente irão a uma sessão do quarto tipo, e no cinema. Ou o filme é tão bom que ninguém ousa perturbar, ou depressa surgirá uma voz a fazer uma piada, alguém com uma resposta inteligente para a personagem demasiado burra, a dar conselhos sobre porque não se deve abrir aquela porta ou porque é preciso uma faca maior, ou a assobiar uma música descaradamente roubada de outro filme, mas muito adequada à situação na tela. Como em qualquer festival do terror, não faltam aplausos sempre que uma mulher se despe ou uma cabeça é devidamente decepada, mas quantas vezes puderam ouvir aplausos ritmados de toda a sala por estar a tocar um alarme de carro? É uma daquelas pequenas coisas que no início não se repara, mas depois de passar por cá parece que praticamente todos os filmes modernos têm um alarme qualquer. No primeiro dia ouvi tanto disso que, quando tocou o despertador na manhã seguinte, desligá-lo foi só a segunda coisa que me passou pela cabeça. Já tinha mudado a reacção instintiva para algo bem mais divertido do que carregar num botão.

Toda aquela gente sádica está ansiosa por colaborar com o Mal, dando sugestões sobre como matar o protagonista de forma eficaz e dolorosa. Ao mesmo tempo querem expulsar demónios milenares e para isso cantam em coro os ditos dos exorcistas, sejam em castelhano, latim, inglês ou japonês. Se algum dia o sobrenatural nos invadir, corram para San Sebastián e anunciem uma sessão de cinema fantástico. Qualquer que seja a situação inacreditável, algures nessa sala encontrarão pelo menos uma pessoa a saber exactamente o que fazer e capaz de manter a seriedade enquanto explica. Provam-no três vezes ao dia durante a Semana e são sempre muito criativos.

Não há nada que esta gente não diga e não se pode colocar a responsabilidade numa só pessoa. Não é sempre o mesmo indivíduo ou grupo que começa. Várias pessoas, mais ou menos timidamente, vão tentando desviar a sessão para a confusão e, assim que um consegue – quanto pior o filme, maior a abertura dos restantes para se deixarem levar - está o caldo entornado. A sessão não voltará a entrar nos eixos. Se o filme for bom, vão-se lembrar que o querem ver outra vez, em melhores condições, e de certeza não vai parecer tão bom como se lembravam. Se o filme é mau, não se vão lembrar dele. Mas vão-se lembrar que foi um momento muito bem passado.

Ao fim de alguns anos de festival, não estranharão ver pessoas a falar ou mesmo a andar com copos de cerveja durante o filme. E mesmo com tudo isso, ainda parecem respeitar mais a projecção do que locais onde o silêncio impera e a comida está proibida. Só têm uma forma diferente de demonstrar esse respeito e carinho.

A selecção

Quando se tem poucas sessões, é preciso torná-las apelativas para um público abrangente. A variedade de filmes foi muito grande com comédias e terrores, uns que funcionam como obras individuais e outros que fazem parte de sagas ou que reinventam trabalhos anteriores. Os bons, os maus e os tão maus que são bons. Aqui ficam os maiores destaques de tudo o que passou pela competição.

Logo na abertura do evento, “The World’s End” fechou com chave de ouro a trilogia Cornetto. Edgar Wright, Simon Pegg e Nick Frost, depois de nos episódios anteriores redefinirem o subgénero dos zombies e reinventarem os polícias e os serial killers, desta vez apresentaram-nos uma fenomenal visão sobre a dificuldade em aceitar a vida adulta, misturada com um elemento fantástico suficientemente divertido. O público, júri principal do festival, decidiu logo nesse momento qual seria o vencedor entre as longas-metragens. Compreende-se perfeitamente pois combina o sério com o inacreditável, o humano com o sobre-humano, o lado emotivo com o racional. Dá para ver com os amigos e com a cara-metade, sendo novo ou velho… Aponta em especial para o público masculino, mas não afugenta o feminino. Em suma, além de se enquadrar completamente no espírito do festival, é para todos os géneros de público e situações. Foi o melhor pontapé de saída que podiam ter dado.

Ainda no capítulo das sequelas não podem faltar referências à antologia “V/H/S/2”, muito melhor do que o primeiro, “Tai Chi Hero”, a peça fundamental e auto-suficiente da (em breve) trilogia de artes marciais/steampunk começada por “Tai Chi Zero”, ou o regresso a “Nuke’em High” num quarto filme que traz a incomparável Troma para uma nova década com base naquilo que fez bem durante quase quarenta anos. Até o terceiro capítulo da saga “Hatchet” marcou presença, provando que o terror é um terreno fértil para repetição de fórmulas.

Falando ainda em repetições, durante a semana passaram obras como “We Are What We Are” de Jim Mickle que reinterpreta o filme mexicano “Somos Lo Que Hay”, e a versão longa-metragem da curta “All Cheerleaders Die” de Lucky McKee. Títulos a não perder por quem estiver curioso sobre que mais esses filmes teriam para oferecer.

Os que desesperam ao ver esta falta de originalidade maioritariamente americana podem estar descansados, pois a maioria dos títulos europeus eram ideias novas e ainda não há ideias de os prolongar no tempo. Dois dos que mais surpreenderam foram “Blutgletscher/The Station” (Áustria) que pode ser descrito como um “The Thing” ecológico e com muito mais humor, e o vencedor do Méliès d’Or “Au Nom du Fils” (Bélgica) sobre a pedofilia na Igreja Católica belga. Duas comédias que não destoaram no meio do cinema fantástico pois não lhes faltam monstros impiedosos e sangue. A actriz Brigitte Kren do filme austríaco esteve no festival e a sua visita foi das mais aplaudidas pela sua imediata empatia com o público e pela divertida e surpreendente personagem.

No encerramento Neil Jordan voltou à temática que o consagrou - vampiros - com “Byzantium”, a história simples de mãe e filha, imortais e eternamente deslocadas por não admitirem toda a história da sua existência. Será uma surpresa para quem procura o convencional filme de vampiros e mesmo para quem se acostumou ao novo cinema mainstream do género. No elenco, duas das mais brilhantes estrelas do firmamento britânico como são Gemma Arterton e Saoirse Rohan, uma a combinar a sensualidade que lhe é conhecida (e bastante apreciada) com alguns sentimentos maternos, a outra a manter-se no registo de adolescente desenquadrada do mundo que nos vem fascinando há meia dúzia de anos.

O cinema espanhol esteve representado em “Capa Caída”, o primeiro filme espanhol de super-heróis que voa muito bem pelo terreno do mockumentary. Trata do primeiro humano com super-poderes e da forma como, por ter nascido em Espanha, é destruído pela opinião pública. Pode parar ou ultrapassar as balas, mas não as palavras. Uma ideia diferente que satiriza o género, ao mesmo tempo que critica a sociedade.

Na animação o estilo inimitável de Bill Plympton regressou em “Cheatin’”. Foi a única longa, mas nas curtas não faltaram títulos bons e perturbadores, capazes de tirar o sono a muita gente. Espreitem “L’Art de Thanatier”, “Sangre de Unicornio”, ou “Canis” para terem uma ideia. As duas últimas até são espanholas. Falando de curtas, “Sequence” de Carles Torrens foi a grande vencedora com três troféus, contudo várias outras surpreenderam tanto ou mais. “Cólera” de Aritz Moreno é uma delas. Não faltarão oportunidades para as verem em festivais pelo que dispensam palavras por agora. E não esquecer “Loco con Ballesta” e “Atmosferamiedo”, dois filmes que apostaram no diálogo para causar todo o género de boas sensações num ambiente que seria de assustar. Estas não são tão seleccionáveis para festivais, mas merecem ser vistas. Nas estrangeiras, “Flytopia” e “How Olin Lost His Eye” foram, das poucas que vi, as mais convincentes.

O grande evento da Semana é a Noite das Bruxas. Este ano teve lugar uma maratona de cinema e um baile de máscaras onde o Dragão de “Dragonball” derrotou Sloth de “The Goonies” e ganhou um livre-trânsito para a próxima edição.

Outras secções

Mas o festival não se limita ao Teatro Principal, que está sempre decorado a rigor. O cinema Victoria Eugenia foi o local de eleição para uma retrospectiva da Cannon, marco incontornável dos anos 80 com filmes tão maus que se tornaram referências, e o ocasional clássico intemporal. Desde Dolph Lundgren como He-Man em “Masters of the Universe” ao Hércules de Lou Ferrigno e o último Superman de Christopher Reeve, os mais fortes entre os homens desfilaram na tela. Tobe Hooper como o maior dos realizadores da Cannon teve vários títulos presentes, mas “Lifeforce” foi o convidado de honra pois teve inclusivamente direito ao lançamento de um livro com mais de uma centena de autores: “LIFEFORCE minuto a minuto”.

Nas secções paralelas a QuimeraFX mostrou os trabalhos prostéticos que tem feito para imensos filmes, desde as curtas “Hotel” e a aqui falada “Cólera”, até à longa “Omnívoros” que chegou aos cinema espanhóis há pouco tempo. São certamente uma empresa a considerar para fazer cinema fantástico em Espanha.

Na Biblioteca decorria a nona edição da Euskadi Fantastikoa, secção dedicada ao comic. Sendo a única secção que não tem ligação ao cinema neste festival, é uma peça importante do fantástico pois apresenta criações muito imaginativas. Este ano estava presente uma exposição com as ilustrações de Nacho Fernández, conhecido por trabalhos como Dragon Fall e Kung Fu Mousse. Reforçando o interesse do festival na nona arte, em especial para chegar ao público mais jovem, foram também apresentados livros comics de diversos autores.

Como em qualquer bom festival, o maior problema que a Semana tem, é que termina ao fim de uns dias. Por isso no centro comercial Okendo decorreu outro ciclo ao longo de Novembro, com outro género de clássicos. “Terminator 2” de James Cameron, “I, Robot” de Alex Proyas, baseado nas obras de Asimov com as famosas três leis da robótica, “Indiana Jones and the Temple of Doom” e “Jurassic Park”, ambos de Spielberg, foram os chamarizes de multidão que ficaram até final de Novembro para que o cinema não acabasse demasiado cedo. Junto a eles, uma exposição com artigos relacionados trazia o imaginário para o mundo real. Por exemplo, a mota conduzida por Will Smith, o rosto de Sonny e o do Terminator, o chicote de Indy… Além de pequenos tesouros desses filmes, também puderam ver o condensador de fluxo do Delorean, o tabuleiro de” Jumanji” e uma moeda pirata dos “Goonies”. De filmes recentes estavam adereços como o uniforme espartano de "300" e as máscaras de V e Ghostface entre muitos outros. Uma verdadeira tentação para os apreciadores e uma motivação para rever grandes filmes. Sempre com a Semana no pensamento.

Foi assim, lentamente, que a Semana de Cinema Fantástico e de Terror partiu. Para o ano estará de volta, com mais cinema para o seu público louco.

 

PALMARÉS

PREMIO DEL JURADO AL MEJOR CORTOMETRAJE

Agón. Juliana Maité. Cuba-Puerto Rico-Panamá, 2012

“MÉLIÈS DE PLATA” AL MEJOR CORTOMETRAJE FANTÁSTICO EUROPEO

How Olin Lost His Eye. Damian McCarthy. Irlanda, 2013

PREMIO DEL JURADO JOVEN AL MEJOR CORTOMETRAJE

Sequence. Carles Torrens. España,  2013

PREMIO DEL PÚBLICO AL MEJOR LARGOMETRAJE

Bienvenidos al fin del mundo (The World's End). Edgar Wright. Reino Unido, 2013

PREMIO DEL PÚBLICO AL MEJOR CORTOMETRAJE

Sequence. Carles Torrens. España,  2013

PREMIO DEL PÚBLICO AL MEJOR CORTOMETRAJE DE ANIMACIÓN

L'art des Thanatier. David Le Bozec. Francia, 2012

PREMIO DEL PÚBLICO AL MEJOR CORTOMETRAJE ESPAÑOL

Sequence. Carles Torrens. España,  2013

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