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Crítica a "Kuime"/"Over Your Dead Body"

el  Monday, 27 October 2014 07:00 Written by 

Miike - moderniza o clássico.

A peça de teatro kabuki Yotsuya Kaidan, quase com duzentos anos, tem sido regularmente adaptada a cinema ao longo dos anos. “Tôkaidô Yotsuya Kaidan” de Nobuo Nakagawa será uma das mais populares, mas existem pelo menos trinta versões. Não é por isso de estranhar que agora também haja uma de Takashi Miike. O mais prolífico realizador japonês pegou num dos maiores clássicos nacionais e deu-lhe uma perspectiva muito diferente da vulgar transposição dos palcos para a tela, num excelente aproveitamento das potencialidades do cinema para fazer um produto mais completo do que o teatro. Um filme passado numa peça de teatro e com uma dupla assombração.

Miyuki Goto é uma actriz que interpreta Oiwa numa nova adaptação de Yotsuya Kaidan. O seu namorado Kosuke Hasegawa apesar de ser um irresponsável ficou com o papel principal, o de marido de Oiwa que a troca por uma mulher mais jovem e bonita, apesar de terem uma família em comum. Só que a realidade não está muito longe da ficção e também fora do palco Kosuke está fascinado pela fama e seduz mulheres mais jovens, desprezando o amor de Miyuki. O problema é que tudo o que se passa na peça parece ter uma réplica na vida real. E a peça envolve um fantasma muito vingativo da mulher envenenada pelo marido. Miyuki pode estar preparada para morrer com a personagem, mas quererá Kosuke depois do ensaio também enfrentar um fantasma ao chegar a casa?

Miike pode fazer três a quatro filmes por ano, mas a sua visão tem duas características que estão quase sempre garantidas. Uma delas é a criatividade, dando-nos filmes absolutamente únicos que ninguém mais conseguiria fazer e que, mesmo quando são menos bons, permanecem no nosso imaginário para sempre. A outra é uma violência abundante que também poucos conseguiriam transpor para o ecrã e à qual o público demora a adaptar-se, mas que venera. Como se podem aplicar estes talentos numa adaptação teatral é algo que só Miike sabe, mas que eles estão bem presentes, isso é inegável. A complexidade das duas narrativas intercruzadas e das suas personagens é facilmente absorvida (desde que não tenham problemas a distinguir rostos asiáticos) e a tensão vai crescendo de forma quase natural. Quando o horror chega, é quase um alívio. É como se o filme encontrasse o seu lugar, depois de uma viagem onde as emoções se foram alternando, desestabilizando o espectador para depois dar o golpe final. Golpe esse que parece um pouco teatral depois de uma história tão bem conseguida, e serve apenas para gerar discussão.

Este Yotsuya Kaidan consegue ter o romantismo da história original, combiná-lo com o modernismo da nossa sociedade, e ser perturbador a vários níveis apesar de nunca perder a classe. Com dois coelhos de uma cajadada é possível reencontrar a visão violenta e macabra de Miike e redescobrir a mais popular peça japonsesa. Os apreciadores do cinema fantástico asiático não podem perder este título. Como o cinema asiático – em especial de Miike - costuma apelar a um público muito específico, quem não estiver familiarizado, talvez deva começar por algo mais leve.

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