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Crítica a "Kong: Skull Isand"

el  Thursday, 09 March 2017 12:00 Written by 

O rei voltou.

O mundo precisava de um monstro para adorar. Os livros de Arthur Conan Doyle (The Lost World) e Edgar Rice Burroughs (The Land That Time Forgot) sugeriam a existência de monstros gigantes e o cinema estava desejoso de pegar no tema. Quando King Kong surgiu pela primeira vez no cinema, os efeitos especiais pós-Méliès estavam a despontar. O génio Willis O’Brien depois de adaptar as criaturas de “The Lost World” e voltar a brincar com dinossauros em “Creation”, foi chamado para o trabalho da sua vida. Na altura era mais um filme de macacos como uma dezena que saíram nessa altura. O que seria mais um da exploitation acabou por se tornar um fenómeno cultural e foi com esse filme que muitos futuros mestres da arte do engano como Ray Harryhausen (que animou Joe Young com base nas criaturas de O’Brien) se vieram a apaixonar pela sétima arte e pelo fantástico.

Sem considerar as sequelas ou adaptações, os filmes com o Rei Macaco do ocidente saíram em 1933, 1976 e 2005. Em 2017 ia sair uma prequela “Skull Island”, mas a possibilidade o fazerem enfrentar o Rei Lagarto forçou a dar mais destaque ao macaco e a colocar o seu nome no título. Portanto o filme sobre as origens do macaco “Skull Island” tornou-se “Kong: Skull Island”, o filme onde vemos um macaco que vai enfrentar um lagarto daqui a alguns anos. As expectativas ficaram comprometidas logo ao início. No entanto o seu elenco de luxo (incluindo o primeiro papel pós-Óscar de Brie Larson) indicava que podia não ser mau de todo. E a verdade é que satisfaz bastante.

Sem entrar em spoilers, ainda que não sejam propriamente novidades para quem acompanha o peludo há oitenta anos, confirma-se o que a mitologia foi estabelecendo. Quem estiver completamente alheio à mitologia de Kong, pelo menos saberá que ele gosta de mulheres louras e de escalar ao topo de prédios. Como na Ilha da Caveira não existem prédios, já sabem a que se vai agarrar. O resto do filme é uma viagem ao trauma do Vietname (tem lugar nos dias após a retirada americana do conflito) e existem diferentes facções em conflito, por motivos históricos, de sobrevivência, ou de vingança, perdendo-se a linha entre quem tem razão e quem tem autoridade. Na realização de Jordan Vogt-Roberts que vem da televisão, a influência maior no visual balança entre Coppola e Kurosawa, mas de forma muito discreta. Consegue construir a sua própria narrativa com três grupos distintos em tela (sem contar com os meros observadores) e equilibrar tanto as homenagens aos anos 70 como a acção pura, deixando muito pouco por fazer. Visualmente foi feito a pensar no 3D e merece ser visto em IMAX se tiverem oportunidade, mas é um filme que sobreviverá ao teste do tempo melhor do que o de Jackson por conseguir criar um elo para além das homenagens. Nem que seja apenas pela acção com que nos bombardeia até ao final. A Legendary continua a ser incontornável no que diz respeito ao cinema kaiju ocidental.

O lado humano da questão confirmou o talento dos protagonistas, em especial o trio forte dos filmes Marvel que aqui tomam as rédeas e cada um por si ou em conjunto roubam o holofote. Os enormes Goodman e Reilly (que também foi Marvel, mas sem poderes) repetem papéis habituais para si, mas Hiddleston e Jackson voltam a provar que conseguem segurar um blockbuster sozinhos sem esforço, e Larson faz ver a Hollywood que só não conseguiu melhores papéis antes porque a indústria andava cega. Isso acabou e agora pode ter os papéis que quiser. Quanto a Kong, deixem a besta crescer. Alguém terá de enfrentar Godzilla e mal podemos esperar.

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