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Crítica a "The Wailing"

el  Monday, 12 September 2016 22:40 Written by 

The Wailing” (Goksung) é o mais recente colosso de Hong-jin Na, o ainda jovem realizador de “The Chaser” (2008) e “The Yellow Sea” (2010), que integram – e digo isto sem qualquer pingo de hesitação –, o leque de melhores filmes dos anos em que estrearam. Tal como os filmes que lhe precederam, “The Wailing” é longo e moroso mas nunca cansativo. Uma película mais do que respeitável para o segundo dia de arranque do Motelx.

Numa Coreia do Sul remota de montanhas de floresta densa existe algures o vilarejo de Goksung. A remanescente paisagem é pontuada por casas dispersas e pouco ou nada sucede. Longe dos stresses e fervores da cidade, onde a força policial se pode dar ao luxo de tardar a entrar ao serviço e todos se conhecem, acontecimentos como a chegada de um estrangeiro japonês constituem a maior fonte de excitação e… de formação de más-línguas. Eis que a calma aparente é quebrada com uma sequência de assassinatos selváticos. Que estranha moléstia afecta os habitantes de tal modo que os leva a cometer actos inimagináveis? Jong-goo (Do-won Kwak) é o polícia a quem é atribuída a investigação das ocorrências. As primeiras pistas sugerem a ingestão de cogumelos alucinogénios mas rapidamente surgem os murmúrios típicos de pequena localidade, de que “o japonês” (Jun Kunimura) estará envolvido nos casos macabros. Crédulo e preguiçoso deixa-se levar pelo falatório, espécie de investigação não oficial comunitária, até que a sua própria filha Hyo-jin (Hwan-hee Kim) começa a exibir um comportamento insólito similar aos das outras vítimas. De súbito o caso ganha uma outra urgência e, ao perceber que o caso vai muito além das respostas tradicionais e das suas limitações enquanto investigador, é chamado por sugestão da sua sogra o xamã Il-Gwang (Jung-min Hwang).

The Wailing” segue o padrão dos trabalhos prévios de Hong-jin Na na sugestão de mistério/thriller policial, mas dá uma viragem brusca para o campo do metafísico, sem perder a tensão crescente que lhes foi tão característica. Enquanto “The Chaser” se focava em duras e longas cenas de perseguição por vielas labirínticas, “The Wailing” mantém-nos agarrados à cadeira através de cenas tais como a de um ritual xamânico, qual luta eterna do bem contra mal, em que bom e vilão empregam toda a sua fisicalidade para tomar posse do corpo de uma garotinha ou a conseguir das garras do mal. O efeito é alcançado mediante a intermediação das cenas de ambos os ritos, aumento exponencial do volume, bem como do aumento dos níveis de intensidade no desempenho dos actores. O elenco é vasto e sólido, sem elos fracos. Cada personagem tem uma palavra a dizer, uma expressão a acrescentar, mesmo que subtil, para o resultado final. Do lado dos “inocentes” temos um Do-won Kwak que encarna na perfeição o polícia tolo e ineficaz tantas vezes retratado no cinema coreano. A inacção e completa incompetência são exasperantes, no entanto, é impossível não simpatizar com o seu desespero enquanto pai que teme perder a sua cria em circunstâncias que nem sequer compreende quanto mais controlar. Também está a seu cargo a maioria das cenas cómicas, que se vem a verificar não serem mais do que uma artimanha para criar uma falsa sensação de conforto inicial. Já a pequena Hwan-hee tem um desempenho de gente grande, no papel de Hyo-jin, a filha de Jong-goo parecendo ela própria, por vezes, mais adulta que os que a rodeiam. É ela a Linda Blair deste “The Wailing” mas sem o apoio do departamento de caracterização.

O misticismo em todo o seu fulgor é canalizado por Jung-min Hwang, Jun Kunimura e Chun-woo Hee, os únicos que parecem saber o que se encontra na base dos incidentes terríveis em Goksung e também aparentam, em simultâneo, estar determinados em esconder o que sabem. Hwang é irrepreensível no sempre difícil papel de “sacerdote” que seria fácil ridiculizar através de uma cena de “exorcismo” mal conseguida. Já Jun Kunimura tem o ingrato papel do “Japonês”, como é tratado pela população pequenina e mesquinha, sabendo de antemão que a escravidão e abusos sobre o povo coreano, na sequência de sucessivas invasões japonesas, constituem crimes de guerra não esquecidos e certamente não perdoados que persistem até aos dias de hoje, sobretudo nos episódios de disputas de ilhas entre os países. O argumento alimenta-se desta rivalidade e preconceito, tema que já tinha sido explorada numa perspectiva diferente, entre os povos chinês, sul e norte-coreano, em “The Yellow Sea”. Esta abordagem torna mais fácil compreender o porquê da facilidade em apontar a culpabilidade do japonês, aliado à desconfiança de povoações pequenas perante os “que não são de cá”. Woo-hee Chun é quem tem talvez menos que fazer mas ainda assim tem uma presença marcante. As vestes, ritos e respostas enigmáticas destes personagens, estão repletas de pistas para as quais a atenção é essencial, ainda que, ao final da segunda hora de filme se torne óbvio que as respostas não serão fáceis. A dificuldade na sua obtenção e a possibilidade de diferentes interpretações pode ser motivo de cólera para alguns mas numa época onde a celebração da mediocridade é cada vez mais banal, um “The Wailing” que se sente confortável pululando entre géneros é porventura um dos momentos cinematográficos mais refrescantes de 2016.

Realização: Hong-jin Na

Argumento: Hong-jin Na

Do-won Kwak como Jong-Goo

Jung-min Hwang como Il-Gwang

Jun Kunimura como “Japonês”

Woo-hee Chun como Moo-Myeong

Hwan-hee Kim como Hyo-jin

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