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Crítica a "Capitão Falcão"

el  Sunday, 26 April 2015 19:00 Written by 

O herói que salvará o cinema da pátria.

Com estreia a 23 de Abril, uma quinta-feira, como mandam as regras da exibição cinematográfica em Portugal, "Capitão Falcão" apresentou-se ao mundo o mais próximo possível do 25 de Abril. A grande campanha que antecedeu o filme garantia que o feror nacionalista do feriado seria capitalizado numa grande afluência às salas para ver o herói do Estado Novo. Contra-senso? Não, humor. Os portugueses festejam o 25 de Abril indo ver a irónica obra onde se elogia e protege Salazar. Nada mais adequado para a reflexão patriótica.


A chegada do Capitão Falcão ao grande público estava difícil. Quando surgiu o episódio-piloto da série, teve tal sucesso que seria uma questão de dias até ouvirmos sobre o contrato feito. Mas as dias foram passando, e os meses, e as televisões não pareciam lutar pela série portuguesa com mais potencial desde "Duarte e Companhia". Um acordo estee quase a ser feito, mas devido a cortes na televisão pública, ficou tudo em águas do tradicional bacalhau. Não havendo canais interessados, só havia duas opções. Ou desistir, ou mudar o formato. E enquanto houvesse um português à espera de ver o Capitão, não podiam desistir. A solução passou por mudar para filme uma estrutura pensada para a televisão. O risco era bem conhecido. A comédia que funciona bem quando dispersa no tempo, pode ser cansativa concentrada numa longa-metragem. Mas os Indivídeos não iam dessitir com base num receio infundado. Se não iam mudar o panorama televisivo nacional, iam mostrar como se faz filmes de super-heróis sem recursos. Se olharmos para Espanha, uma pujante indústria cinematográfica aqui mesmo ao lado, o seu primeiro filme de super-heróis nacionais data de 2013. Podiamos ter ganho essa corrida.


Se ainda for precisa sinopse, "Capitão Falcão" é sobre essa figura patriótica que zela pela segurança de Portugal e do Presidente do Conselho de Ministros na conturbada década de 1960. O nosso país resistia orgulhosamente só às mais diversas ameaças exteriores, como comunistas, feministas, artistas e outros seres igualmente perigosos. Mas uma ameaça avança clandestinamente e o próprio Salazar está em perigo. Só o mais patriota dos militares portugueses, o incrível Capitão Falcão, e o seu aprendiz Puto Perdiz, podem eliminar os perigos e repôr a normalidade do nosso próspero país.


Brincar dizendo bem da ditadura é perigoso. Só um público bem informado consegue discernir que, apesar de serem ditas muitas verdades sobre prosperidade, o problema está em tudo o que não foi dito. A ignorância selectiva do Capitão e da nação é parte da anedota. Como o filme é hipérbólico em tudo, é óbvio que não defende o regime, nem  insulta as mulheres ou as opções políticas de cada um. Na verdade, ao mostrar quão errado está o Capitão, acaba por apoiar todas as causas a que ele se opõe. Quem tiver visto o episódio piloto (com o qual me deparei duas vezes, mas que tem sido muito bem protegido) reconhecerá uma parte das cenas. Penso que quem viu o piloto é desde então um acérrimo defensor da personagem e é com bom grado que revê essa parte, tal como decerto reveria o episódio quando fosse emitido. Do piloto para o filme, muito mudou. O tom ficou mais soturno, a relação entre o Capitão e o puto parece mais distante. Esta visão mais negra equilibra o excesso de comédia que o episódio tinha se fosse tornado numa longa. Foi uma jogada inteligente, ainda que arriscada. Para quem não viu o piloto, parece natural que o filme se centre quase exclusivamente no protagonista.


Por entre momentos bons e menos bons, a entrada do Capitão na armadilha vai tendo lugar. As piadas com referências históricas e culturais são dispersas e integradas com a trama. E finalmente, a acção pura e dura volta a ser o centro de tudo. Com um twist inesperado, um final corajoso, e ainda uma cena após os créditos ao melhor estilo americano, "Capitão Falcão" cumpre tudo aquilo a que se propunha e mais. Dá entretenimento, o overacting está no ponto, e faz qualquer um sentir imenso orgulho em ser português. Venham muito mais Capitães Falcões que é disso que o país precisa para avançar.

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