Scifiworld

Crítica a "Blackhat"

el  Sunday, 12 April 2015 20:30 Written by 

o novo de Michael Mann é uma desilusão.

Noutra época, Sherlock Holmes teria sido informático. Não o digo por Benedict Cumberbatch ter desencriptado a Enigma ou por Robert Downey Jr. criar robots como Tony Stark quando não vestem a pele de Sherlock. Claro que todos imaginam que a vida dum informatico é isso. E seguramente algum informático que conhecem já não está bom da cabeça, como no filme que vem aí de “Mr. Holmes”. Mas ignorando as outras máscaras dos actores e as adaptações que vão sendo feitas da obra literária de Arthur Conan Doyle, o que sabemos sobre Sherlock? Sabemos que prefere resolver um bom desafio de graça a um caso simples pago principescamente. Sabemos que é capaz de reter imensa informação aparentemente inútil, apesar de por vezes não saber coisas que todos acham fundamentais No entanto, rapidamente asimila as novas informações que precisa e se integra num novo contexto, revelando mestria superior a quem fez isso toda a vida e descobrindo novas e melhores formas de fazer as coisas. Sabemos que o seu intelecto é superior ao de qualquer pessoa e que isso lhe retira o interesse de conhecer pessoas, apesar de as achar muito curiosas por um breve espaço de tempo. Sabemos que tem hobbies curiosos e que aprecia a beleza de coisas invulgares. E sabemos que normalmente não precisa de sair do seu escritório para salvar o mundo. No século XXI essa descrição aplica-se perfeitamente a um informático. Um terço cientista, um terço super-herói e um terço camaleão, é muito mais valioso que uma pessoa comum e sabe-o. Alguns leitores podem querer discordar, mas tal como com Sherlock, é uma batalha que vão perder por isso não tentem.

 

O cinema tem tentado explorar o misterioso mundo do  IT e torná-lo num mundo repleto de acção. O mais recente exemplo terá sido este “Blackhat”, um regresso de Michael Mann ao submundo do crime de onde nos trouxe tantas e tão memoráveis histórias. Só que Mann não sabe interpretar essa acção da mesma forma do que quem vem desse mundo. Álvaro de Campos, produto da imaginação de Fernando Pessoa, tem um poema muito breve que sintetiza perfeitamente essa sensação: “O Binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso.[...]” Imaginem que o cinema ia falar de matemática como quem fala de pintura. Certamente não teria bom resultado. O mesmo se passa quando tenta mostrar a informática como se fosse uma actividade física. Podem ter recorrido a hackers para não cometerem nenhuma falha grave nos detalhes, mas esqueceram-se que também a bigger picture tinha de estar enquadrada com a realidade. Ora, os informáticos, sejam quais forem as suas áreas de especialidades, continuam a ser pessoas. E inteligentes e cultas. Sabem usar o binómio de Newton e reconhecem a Vénus de Milo. Ou seja, pode ver filmes sobre informática e de acção. Não precisam de tornar uma coisa noutra por causa deles. Não precisam de os tornar no herói padrão se eles salvam vidas todos os dias. Para quê um tipo louro, alto e forte? Podiam tentar tornar o programador num herói do tipo musculado, mas precisavam de ser assim tão óbvios e chamar o deus do trovão? Não havia ninguém com menos de dois metros? Que ele queira estar no terreno e sujar as mãos a mexer em hardware não é estranho, mas escusava de se armar em James Bond e fazer tudo sozinho. A cada cena que passa, a impressão de estar a ver o filme errado aumenta. Chris Hemsworth não foi a escolha certa para o papel, ainda que tenha sido uma excelente escolha para o filme de acção que nos obrigam a ver por engano.

Vamos ver de que trata o filme. Um reactor nuclear na China explode causando o caos. Pouco depois, uma flutuação invulgar no mercado de soja lança suspeitas para um ataque informático em grande escala. A China e os EUA vão tentar resolver este problema com uma equipa conjunta, mas do lado chinês há uma exigência: precisam do hacker Nick Hathaway que está a cumprir 15 anos de prisão. Ele é quem melhor conhece o RAT usado para entrar nos sistemas, ele é a melhor hipótese deles apanharem o culpado. Hathaway está disposto a ajudar e é boa pessoa, mas um hacker será sempre um hacker e não só não tem qualquer respeito pela lei, como dispensa formalidades e trabalho em equipa.

A aposta do filme foi nos mercados mais importantes da actualidade - o americano e o chinês - dando igual relevo a ambos, contudo para o espectador esta dualidade é um pouco confusa. Em muitos aspectos fez-me lembrar “Black Rain”. Se lhe juntarem mais algumas explosões e esse for o vosso estilo de filme, terão de ver. Essa perspectiva do mercado global alerta para o que estão a tentar fazer do cinema: uma máquina de dinheiro, independentemente da história que tenham em mente. Tirando o detalhe da história não prestar, Mann filma muito bem em digital e não se poupou a esforços, tendo filmado por vários países e reunido 3000 figurantes para a cena final. So é pena ter tido todo esse trabalho e que no fim o filme não seja memorável. Passada uma semana, foi esquecido.

Leave a comment

Make sure you enter the (*) required information where indicated. HTML code is not allowed.

Mais Vistos

 

C/ Celso Emilio Ferreiro, 2 - 4°D
36600 Vilagarcía de Arousa
Pontevedra (España)

Redacción: 653.378.415

info@scifiworld.es

Copyright © 2005 - 2022 Scifiworld Entertainment - Desarrollo web: Ático I Creativos