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Crítica a "Maps to the Stars"

el  Thursday, 09 October 2014 20:30 Written by 

Viagem de limusine ao lado negro de Hollywood.

Depois desse imenso desastre da crítica que foi a incursão de Cronenberg pela literatura de Don DeLillo, em “Cosmopolis”, percebe-se que Cronenberg está numa encruzilhada na sua carreira. Tendo criado o seu estilo e a sua fama no território do fantástico – o nickname “Baron of Blood” tem as sua razões para existir, ascendeu ao mainstream sem nunca perder essas raízes. Filmes como “Dead Ringers”, “Naked Lunch”, “eXistenZ” e “M. Butterfly” mantiveram os seus fãs tradicionais ao mesmo tempo que conquistavam um público alargado. Tornado um dos grandes cineastas do século XX, sem nunca perder a marca de autor, Cronenberg conseguiu partir da grande literatura sem se deixar manietar pela grandeza dos escritores que adaptou, caso de Stephen King e William S. Burroughs.

Com o avançar da idade parece que alguns dos seus fantasmas ainda se mantêm, mas o seu cinema perdeu o encanto de outrora. Tal como em “Cosmopolis” o sexo e o símbolo da nossa civilização que é o automóvel, continuam a ter um lugar privilegiado. Tal como Robert Pattinson e Sarah Gabon. Mas nem uma sexualidade perturbada, nem esse micro-cosmos que é o interior claustrofóbico do automóvel, suscitam ao espectador as antigas emoções. A primeira lembrança que nos ocorre é um pouco do criador à procura da sua criatura, um cineasta à procura do seu filme, como “8 ½” de Fellini, ou “Stardust Memories” de Woody Allen. Se o sarcasmo e o cinismo de uma Hollywood decadente e estereotipada parece presidir a todo o filme, a verdade é que esta viagem por essa terra das estrelas de outrora e de hoje não tem nem glamour, nem grande nostalgia.

Claro que em Cannes funcionou bem este piscar de olho às celebridades, com várias personagens inspiradas em gente real, acontecimentos que provavelmente são segredos bem guardados do jet set, e casos raros de pessoas reais tratados com todo o respeito, como Carrie Fisher. As personagens inventadas são interpretadas por um lote de estrelas que conseguem mais tempo do que os secundários do Cronenberg anterior. Uma fenomenal Julianne Moore (Melhor Actriz em Cannes) divide o peso do filme com Mia Wasikowska (já interpretaram mãe e filha, agora é um pouco diferente) e são secundados por John Cusack e Olivia Williams. Figuras incontornáveis da sétima arte que conhecemos de há muitos anos, lutam por um lugar no mundo do cinema é difícil de acreditar. Já quanto aos dois referidos anteriormente que vieram de “Cosmopolis”, Pattinson continua preso à limusine e Gadon é ainda uma musa intocável, mas estes papéis encaixam no seu estatuto actual pelo que ficam muito bem. O filme acaba por funcionar bem como um “Mapa para as Estrelas” por ser um guia para esses seres tão afáveis em público e tão cruéis quando lutam por um papel, apesar de também ter muito do título alternativo, “Hollywood Nightmare”.

É um olhar triste e cinzento que parece induzir o espectador à ideia de uma Hollywood em vias de extinção. Cronenberg pode ter uma ânsia enorme de filmar, mas não sei se consegue convencer os seus fiéis a manterem a mesma devoção pelo seu cinema. As saudades de “Videodrome” ou “eXistenZ” são demasiado intensas. Cronenberg parece estar mais nas mãos de produtores do que no controlo absoluto da sua carreira.

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